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(Reportagem:
Susy Murakami/NB)
Quando esteve
no Japão recentemente, a professora de língua japonesa Akiko
Kurihara foi ao salão de beleza cortar o cabelo. Ao solicitar o
serviço, ela usou a palavra kiru (cortar). O cabeleireiro hesitou
por um instante, como se estranhasse o pedido, mas logo respondeu, corrigindo
a cliente: Ah, cato [do inglês cut = cortar] suru [fazer]
No idioma japonês moderno, o uso do termo kiru estaria adequado
se, por exemplo, o cabeleireiro cortasse acidentalmente a orelha do(a)
cliente com a tesoura. Assim, se você quiser que ele apenas corte
o seu cabelo, é melhor pedir cato shite. E também
não diga que você quer arau (lavar) o cabelo, pois poderá
passar por uma pessoa antiquada. Diga shampuu [shampoo] suru.
A contínua
mudança que vem sofrendo a língua falada no Japão
é, na verdade, um fenômeno que ocorre com todos os idiomas
ao longo dos anos, seja por influências externas, seja pela modernização
de hábitos e costumes. E o fato de muitos nikkeis, inclusive japoneses
que ficaram longo tempo fora de seu país, enfrentarem desencontros
de vocabulário como os relatados acima, deve-se às variadas
formas com as quais o nihongô falado no Japão e o herdado
pelos descendentes que moram no Brasil evoluíram.
Para estudiosos
no assunto, essa variação nada mais é do que uma
riqueza de expressão. Assim como na terra natal, o
japonês falado aqui, embora em menor proporção, também
mudou, como explica a professora da Universidade de São Paulo,
Leiko Matsubara Morales, especialista em linguísticas japonesa
e aplicada: Em contato com a língua portuguesa local, o japonês
falado no Brasil criou neologismos tanto quanto os japoneses o fazem em
contato com a língua inglesa.
Por outro lado,
mais do que no Japão, a língua utilizada pelos imigrantes
e seus descendentes em terras brasileiras foi melhor preservada, já
que muitas das expressões aprendidas com os avós ou com
os pais que as trouxeram na época na imigração não
foram modificadas.
Para os especialistas,
falar um japonês utilizando palavras mais antigas não significa
falar errado. Diante da realidade em que existem tantos dialetos
no Japão, por que não pode existir mais uma variante fora
do país?, questiona Yuki Mukai, professor do Departamento
de Línguas Estrangeiras e Tradução da Universidade
de Brasília (UnB).
Os próprios
descendentes de japoneses no Brasil costumam ver esse fenômeno linguístico
de forma negativa, mas eu não o vejo dessa maneira, uma vez que
essa língua é utilizada de forma predominante [e talvez
preferida] como meio de comunicação da comunidade nipo-brasileira,
completa Mukai.
Outro fenômeno
que acontece aqui é a mistura, na linguagem falada, de diversos
dialetos japoneses, resultando no que comunidade local chama de colonia-go
(idioma da colônia). Assim, quem usa o idioma japonês no trabalho,
por exemplo, ou viaja constantemente para o arquipélago, é
importante estar atento às mudanças e à norma-padrão,
já que, além das variedades, a estrutura linguística
depende também do tipo de relação interpessoal,
como ressalta a professora Leiko.
Do ponto
de vista didático, é importante o professor estar bem informado
das variações e dos modismos para ensinar adequadamente.
Quem não domina a norma-padrão muitas vezes passa por constrangimentos,
ressalta a professora da USP.
A incorporação
de expressões ocidentais no arquipélago remonta ao século
XVI, de acordo com o professor Mukai, quando o missionário Francisco
Xavier chegou ao país.
No século
seguinte, foi a vez da Holanda, cuja influência sobre o idioma japonês
se deu pelo contato do Japão com a Companhia Holandesa das Índias
Orientais.
Finalmente,
no século XX, após a Segunda Guerra Mundial, o país
estreitou relações com os Estados Unidos, recebendo, assim,
grande influência do inglês.
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