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Sábado, 31 de julho de 2010
Especial
Você fala o japonês do Japão ou o do Brasil?
 
Com tantas mudanças, o japonês falado lá já não é o mesmo usado pelos nikkeis daqui

(Reportagem: Susy Murakami/NB)

Quando esteve no Japão recentemente, a professora de língua japonesa Akiko Kurihara foi ao salão de beleza cortar o cabelo. Ao solicitar o serviço, ela usou a palavra kiru (cortar). O cabeleireiro hesitou por um instante, como se estranhasse o pedido, mas logo respondeu, corrigindo a cliente: “Ah, cato [do inglês cut = cortar] suru [fazer]” No idioma japonês moderno, o uso do termo kiru estaria adequado se, por exemplo, o cabeleireiro cortasse acidentalmente a orelha do(a) cliente com a tesoura. Assim, se você quiser que ele apenas corte o seu cabelo, é melhor pedir “cato shite”. E também não diga que você quer arau (lavar) o cabelo, pois poderá passar por uma pessoa antiquada. Diga “shampuu [shampoo] suru”.

A contínua mudança que vem sofrendo a língua falada no Japão é, na verdade, um fenômeno que ocorre com todos os idiomas ao longo dos anos, seja por influências externas, seja pela modernização de hábitos e costumes. E o fato de muitos nikkeis, inclusive japoneses que ficaram longo tempo fora de seu país, enfrentarem desencontros de vocabulário como os relatados acima, deve-se às variadas formas com as quais o nihongô falado no Japão e o herdado pelos descendentes que moram no Brasil evoluíram.

Para estudiosos no assunto, essa variação nada mais é do que uma “riqueza de expressão”. Assim como na terra natal, o japonês falado aqui, embora em menor proporção, também mudou, como explica a professora da Universidade de São Paulo, Leiko Matsubara Morales, especialista em linguísticas japonesa e aplicada: “Em contato com a língua portuguesa local, o japonês falado no Brasil criou neologismos tanto quanto os japoneses o fazem em contato com a língua inglesa”.

Por outro lado, mais do que no Japão, a língua utilizada pelos imigrantes e seus descendentes em terras brasileiras foi melhor preservada, já que muitas das expressões aprendidas com os avós ou com os pais que as trouxeram na época na imigração não foram modificadas.

Para os especialistas, falar um japonês utilizando palavras mais antigas não significa falar errado. “Diante da realidade em que existem tantos dialetos no Japão, por que não pode existir mais uma variante fora do país?”, questiona Yuki Mukai, professor do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução da Universidade de Brasília (UnB).

“Os próprios descendentes de japoneses no Brasil costumam ver esse fenômeno linguístico de forma negativa, mas eu não o vejo dessa maneira, uma vez que essa língua é utilizada de forma predominante [e talvez preferida] como meio de comunicação da comunidade nipo-brasileira”, completa Mukai.

Outro fenômeno que acontece aqui é a mistura, na linguagem falada, de diversos dialetos japoneses, resultando no que comunidade local chama de colonia-go (idioma da colônia). Assim, quem usa o idioma japonês no trabalho, por exemplo, ou viaja constantemente para o arquipélago, é importante estar atento às mudanças e à norma-padrão, já que, além das variedades, a estrutura linguística depende também do “tipo de relação interpessoal”, como ressalta a professora Leiko.

“Do ponto de vista didático, é importante o professor estar bem informado das variações e dos modismos para ensinar adequadamente. Quem não domina a norma-padrão muitas vezes passa por constrangimentos”, ressalta a professora da USP.

A incorporação de expressões ocidentais no arquipélago remonta ao século XVI, de acordo com o professor Mukai, quando o missionário Francisco Xavier chegou ao país.

No século seguinte, foi a vez da Holanda, cuja influência sobre o idioma japonês se deu pelo contato do Japão com a Companhia Holandesa das Índias Orientais.

Finalmente, no século XX, após a Segunda Guerra Mundial, o país estreitou relações com os Estados Unidos, recebendo, assim, grande influência do inglês.

 
Exemplos de expressões “americanizadas”
Como era (e ainda é no Brasil)
Como é hoje no Japão
Banheiro: benjoo otearai, toirê (toilet), keishooshitsu
Papel higiênico benjoogami toiretto peepaa (toilet paper)
Colar kubikazari nekuresu (necklace)
Cabide: emoncake (para quimono) hangaa (hanger)
Cachecol: erimaki mafura (muffler)
Brinco: mimikazari iaringu (earing – de pressão),
piasu (piercing – de furar)
Caderno: choomen nooto (notebook)
Máquina fotográfica: shashinki camera
Avental: maekake epuron (apron)
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