
Revista mensal You, publicada pela Shueisha, uma das 3 grandes editoras
do mercado de mangá |

Moyoko Anno, autora de histórias para meninas, hoje, publica
Hataraki Man (ao lado) em revista de mangás para homens
|

Acima, Kumo wo Koroshita Otoko, de Ichiko Ima, autora que tem se
inspirado em lendas do Japão e da China
|
(Reportagem:
Erika Horigoshi | Fotos Divulgação)
Contextualizar
melhor uma situação prática, ter contato com expressões
idiomáticas e onomatopeias. Verificar, com o auxílio visual,
a aplicação de determinadas regras e formas de tratamento
que a linguagem oral acompanha. Essas são apenas algumas das finalidades
com as quais o mangá, os famosos quadrinhos japoneses, pode ser
utilizado para incentivar alunos a estudar e a aprimorar o estudo da língua
japonesa. O mangá utiliza um recurso visual bastante expressivo,
é rico em sinais, expressões faciais dos personagens, metáforas
e onomatopeias. Desde que ele não seja a única forma de
aprendizado e que faça parte de um estudo orientado, há
muitos pontos positivos, explica a professora Leiko Matsubara Morales,
do Centro de Estudos Japoneses da Universidade de São Paulo (USP).
Das
bancas para as escolas
A ideia é
boa e, como dizem os professores, produz um resultado eficaz. Entretanto,
antes de levar o mangá para a sala de aula, é necessário
considerar alguns fatores importantes, a fim de não prejudicar
o processo de aprendizado do aluno. O mangá, tal como é
vendido no mercado, sem nenhum tipo de adaptação para servir
como material de ensino, é um recurso extra, mas não serve
como livro-texto principal, especialmente para os níveis básicos,
assim como os gibis brasileiros não servem como livro-texto principal
para ensinar o português a estrangeiros que não tenham nenhuma
noção do idioma, ressalta a diretora-geral de ensino
da Aliança Cultural Brasil-Japão, Jaqueline Nabeta.
De acordo com
Jaqueline, é necessário fazer adaptações dos
quadrinhos japoneses para sua utilização em aula, ou até
mesmo o desenvolvimento de um livro-mangá-didático,
como alguns títulos já existentes no mercado editorial.
Nunca usei o mangá propriamente dito em sala de aula. O material
que empreguei foi um livro desenvolvido com as características
do mangá, como os desenhos, por exemplo. O apelo visual é
muito bom, além de deixar a aula mais divertida, conta.
Já a
professora Ayako Akamine, do Centro de Línguas da Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp) teve uma experiência interessante
com seus alunos envolvendo o Shôjo Mangá (os quadrinhos para
meninas no Japão) para tratar do cotidiano familiar e da relação
com amigos no arquipélago. Em uma turma do nível básico
2, utilizei duas páginas de um shôjo mangá. Como a
história tratava do cotidiano vivido entre amigos e familiares,
acabei usando [os quadrinhos] como um instrumento para exemplificar o
uso da linguagem informal, lembra. No entanto, a professora faz
uma observação: Cabe ressaltar que a narrativa possuía
uma linguagem simples e era bem próxima à realidade.
Ferramenta
de ensino
Se bem administrado,
o mangá pode se converter no maior auxiliar do professor em sala
de aula. E isso também pode se aplicar àqueles que querem
aprender a língua japonesa por conta própria. Para
quem estuda como autodidata, [o mangá] tem sido uma ótima
ferramenta para acelerar o processo de aprendizado para aquisição
de vocabulário, enfatiza Leiko. Mas a professora da USP observa
também um fator importante, se esse processo for marcado por uma
ampla influência do mangá sobre o aprendizado do aluno: Muitas
vezes, há pessoas que acabam adquirindo o japonês muito informal
e coloquial, deixando de evoluir no domínio da forma padrão
da língua.
Jaqueline,
por sua vez, destaca prós e contras que devem ser considerados
para um ensino eficiente. O mangá é um bom recurso
para ensinar onomatopeias em japonês e para elucidar diferentes
escritas do idioma [os silabários hiragana, katakana e mesmo o
kanji] e suas utilizações. No entanto, é preciso
atentar para casos de pessoas que acabam falando bem o japonês,
mas só sabem se expressar como um personagem de mangá ou
de animê.
O equilíbrio
para o aproveitamento do mangá como um incentivo a mais na hora
de estudar japonês está, em grande parte, nas mãos
do professor. Existem diversos tipos de mangá, cada qual
explorando situações e universos diferentes, com a vantagem
de estarem contextualizados em imagens. Dessa forma, há como utilizá-los
para ilustrar o uso da língua japonesa em determinados contextos,
bem como algum aspecto cultural ou social o que exige do professor
um preparo cuidadoso na seleção do material, sempre considerando
sua adequação ao nível do curso e à quantidade
de informação nela inserida, analisa Ayako.
|