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Sábado, 31 de julho de 2010
Especial
Ninomiya Sontoku e suas lições históricas
Numa época em que trabalhadores perdem suas casas por inadimplência e grandes bancos de investimento entram em falência, o ensinamento que Sontoku deixou ao povo japonês volta ao centro das atenções e pode ser aplicado pelo mundo todo


Estátua inaugurada no Brasil foi doada pela província de Kanagawa, local de nascimento de Kinjirô


Quem foi Ninomiya Sontoku (Kinjirô)

Filho primogênito de uma família proprietária de terras no feudo de Odawara (atual Kanagawa), Ninomiya Sontoku recebeu educação do pai, agricultor amante das letras. O transbordamento do Rio Sakawa atingiu as terras da família, que ficaram improdutivas. Como os impostos eram altos, a família foi vendendo as terras e acabou por perder tudo com a morte do pai e da mãe, quando Kinjirô tinha 14 anos. Adotado pela família do tio, que achava que deveria se concentrar na agricultura, Kinjirô plantou colza (planta parecida com canola) para extrair óleo e poder estudar à luz de lampião. Ao ver mudas de arroz jogadas fora, plantou-as e conseguiu colher o equivalente a 60 quilos de arroz. Desses pequenos trabalhos, conseguiu juntar dinheiro para comprar de volta as terras da família, aos 20 anos.

Ele também foi um bom administrador: aos 32 anos, foi contratado pela família Hattori para administrar seus bens e reestruturar as finanças. Estudando o fluxo de caixa dos anos anteriores, Kinjirô estabeleceu os gastos para sair do vermelho. Vendo o seu trabalho, Tanezane Okubo, senhor feudal de Odawara, superior da família Hattori, ordenou que ele fosse à atual província de Tochigi para reerguer a vila de Sakuramachi, da família Uzu, parente de Okubo. Ele percebeu que os agricultores não conseguiam pagar os impostos porque o cálculo era baseado no tamanho das terras, independentemente de a safra ser boa ou não. Convenceu o governo a baixar os impostos por dez anos, para que o dinheiro pudesse ser investido na melhora da produção.

Kinjirô teve seu trabalho reconhecido e foi nomeado samurai aos 56 anos. No ano seguinte, ele passou a usar o nome de Sontoku.

Aos 60 anos, ele concluiu o seu modelo de reesturação financeira e produtiva, que, até hoje, é empregado no Japão. A sua figura tornou-se popular no século XX, quando a Associação Hotoku, criada por seus discípulos para promover o pensamento de Sontoku, passou a doar estátuas retratando Kinjirô, ou Sontoku, ainda criança. Neste mês, foi inaugurada uma estátua de Kinjirô no Brasil, doada pela província de Kanagawa, local de nascimento de Sontoku.

Esforço, autodeterminação, perseverança. Alguns dos valores creditados aos japoneses e a seus descendentes encontram-se na figura de um menino que caminha com lenha nas costas e lê ao mesmo tempo, cuja estátua se encontra em muitas escolas japonesas.

Ninomiya Kinjirô, que, mais tarde, adotou o nome de Sontoku, foi uma personagem real que superou as adversidades da pobreza e foi exemplo de líder numa época em que os japoneses enfrentaram a fome causada pela má safra. A sua filosofia nasceu da observação do dia-a-dia como agricultor e administrador de bens e seu maior trunfo foi a prestreza: cada adversidade era respondida com uma atitude positiva e não se titubeava em partir para a prática.

Numa época em que trabalhadores perdem suas casas por inadimplência e grandes bancos de investimento entram em falência, o ensinamento de Sontoku volta ao centro das atenções. “O grande problema é que separaram economia da ética”, diz Akira Kusayama, diretor do Museu Hotoku, dedicado a Ninomiya Sontoku.

Observando os feitos de Sontoku, percebe-se que ele foi visionário, um precursor de atividades que o mundo ainda hoje se esforça em pôr em prática. Quando criança, Sontoku percebeu que, plantando árvores, poderia evitar o rompimento dos diques à medida que suas raízes cresciam. Hoje, estimula-se a preservação da mata nativa em torno de ribeirões para evitar o assoreamento e o desmoronamento das margens.

O sistema de bancos cooperativos, que vem ganhando destaque como solução para capitalização de pequenos empreendimentos, já era praticado por Sontoku como parte dos esforços para reestruturação econômica, em pleno século XVIII. O sistema, chamado de Gojô-kô, fundamenta-se nas cinco virtudes do confucionismo: dever, justiça, respeito (gratidão), sabedoria e confiança. Sontoku percebeu que atividades como venda, compra e empréstimo de dinheiro tinham forte presença na relação das pessoas. Ao observar as cinco virtudes, todas as partes ficariam satisfeitas: quem toma o dinheiro emprestado não deve se esquecer da gratidão; ao pleitear direito ou exigir o cumprimento do dever, deve-se fazê-lo com justiça. Assim, Sontoku conseguiu salvar as finanças do feudo de Odawara, do qual foi contador.

Como agricultor, ele pôde evitar a grande fome que assolou o país em 1833: percebeu que a berinjela recém-colhida tinha gosto de berinjela de outono, em pleno verão. Observou as plantações e entendeu que o clima estava frio demais para a época. Assim, ordenou que fosse plantada uma espécie de cereal mais forte que o arroz, evitando mortes no caso de má safra. Prevendo safras ainda piores, ensinou os agricultores a produzir e a estocar reserva.

Mas se a socidade japonesa tivesse cumprido os ensinamentos de Sontoku, como planejamento e consciência de limite, não estaria a salvo da crise financeira que assola o mundo? Não teria evitado a crise moral? “Certamente”, respondeu Seizo Ninomiya, tataraneto de Sontoku e representante da Associação Hotoku do Japão. “Ouvindo os nikkeis, senti que as palavras de Sontoku estão mais vivas no Brasil do que no Japão. É a lição que levarei aos japoneses”, afirmou.

(*Colaboração: Yoko Fujino/NB)

 
A filosofia de Ninomiya Sontoku

1- Os pequenos esforços levam à grande conquista
Não se deve desprezar o trabalho porque ele é pequeno, ou porque ele é apenas um grão de cereal. Todos os grandes feitos são resultados da soma de trabalhos pequenos.

2- Persistir nos esforços:
Ao encontrar as adversidades, Kinjirô não desistia: procurava uma saída para superá-las.

3- Ter a visão do todo
Essa pode ser considerada a base do pensamento de Sontoku. Cada ser humano faz parte de um todo e tudo o que se faz terá um retorno.

4- Ter consciência do seu limite
Devemos saber quais são as necessidades e as possibilidades, para planejar os gastos.

5- Uso do excedente para o bem comum
Quando o que temos é superior às nossas necessidades, usamos nossas posses para o bem de todos. Quem pode dá.


Seizo Ninomiya, tataraneto de Sontoku: “As palavras de Sontoku estão mais vivas no Brasil do que no Japão”
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