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Por
Erika Horigoshi
O samurai
mais famoso da história do Japão já foi assunto
de livros, minisséries e novelas para TV, longas-metragens para
o cinema, matéria de capa de várias revistas, além
de ter sido amplamente estudado mundo afora. Miyamoto Musashi é
uma lenda no universo cultural japonês que ultrapassou as fronteiras
do Japão e, hoje, é um ícone conhecido em vários
países admiradores das tradições do arquipélago.
No Brasil,
país que conta com a maior comunidade de descendentes de japoneses
fora daquele país, não poderia ser diferente. E o cenário
é propício para um relançamento importante no mercado
editorial: ao completar dez anos de publicação no País,
a Editora Estação Liberdade lança, em nova roupagem,
a edição em volumes de Musashi, texto de Eiji Yoshikawa
traduzido diretamente do japonês por Leiko Gotoda. A reedição
de Musashi no contexto brasileiro vem a constatar a universalidade da
essência dos valores éticos transmitidos por meio da personagem
histórica que viveu no Japão entre os séculos XVI
e meados do século XVII. Universalidade esta que é atemporal,
ultrapassando os espaços físico e cultural, comenta
a professora Maria Fusako Tomimatsu, da Universidade Estadual de Londrina
(UEL).
Enredo
e novidades
Musashi
é uma obra extensa: na primeira edição brasileira,
contava com dois volumes; já a reedição é
composta por três livros assim intitulados: Livro 1 A Terra
A Água O Fogo; Livro 2 O Vento O
Céu; e Livro 3 As Duas Forças A Harmonia
Final.
O samurai
é protagonista de um romance épico baseado na história
japonesa, tendo como ponto de partida o episódio da Batalha de
Sekigahara. O processo de aperfeiçoamento espiritual e guerreira
de Miyamoto Musashi é contado por meio dos desafios encontrados
por ele durante o caminho.
Ao mesmo
tempo, a obra de Yoshikawa oferece um panorama do Japão em seu
momento de unificação nacional sob o domínio dos
Tokugawas, atravessando um período de transição
que abrange as várias lutas armadas entre daimiôs e o surgimento
dos burocratas. Tal percurso mergulharia o país em um isolamento
de mais de dois séculos. O interessante na obra é
a sua natureza de enfatizar a dedicação feita de corpo
e alma a um propósito, enfrentando os mais diversos obstáculos,
o que se liga a todas as formas de estudos e aprimoramento ao estilo
japonês. E isso me parece um ideal universal extremamente atraente,
diz Neide Hissae Nagae, professora da Universidade Paulista Júlio
de Mesquita Filho (Unesp).
A obra-prima
de Eiji Yoshikawa foi publicada, inicialmente, em forma de artigos no
Asahi Shimbun, totalizando pouco mais de mil episódios entre
os anos de 1935 e 1939, posteriormente, reunidos em livros. Nesta reedição,
acompanha ainda os três volumes da obra um livreto ilustrado com
representações do grande samurai em gravuras ukiyo-e.
A edição brasileira de Musashi é a primeira versão
integral da obra no Ocidente.
Importância
cultural
Escritor
Eiji Yoshikawa tornou-se famoso por sua obra-prima, Musashi |
Musashi
é um elemento muito característico da cultura japonesa
e também uma presença muito marcante no imaginário
de várias gerações japonesas, explica o professor
do Centro de Estudos Orientais da Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo (CEO-PUC) Marco Souza. Nesse contexto, o relançamento
da obra no Brasil reflete sua importância consolidada no Japão.
Mas, ao contrário do que muitos fãs possam pensar, no
arquipélago, isso se dá com um caráter mais popular
do que propriamente em uma esfera restrita ao literário-cultural.
No Japão, Musashi é classificado mais como literatura
popular, mas acredito que essa obra ainda haverá de ocupar
um lugar por muito tempo já merecido no gênero de romance
histórico [japonês], afirma Neide Nagae.
Segundo Marco
Souza, a serialização em jornal para o conhecido formato
livro da narrativa de Yoshikawa foi um fator que contribuiu para a popularização
mais do personagem que da pessoa real de Musashi. Para o professor da
PUC de São Paulo, o trabalho de Yoshikawa foi o início
da apropriação por parte da indústria do entretenimento,
que levou Musashi para o teatro, o cinema, a televisão, o mangá,
o animê e, mais recentemente, para o game do tipo Playstation.
Independentemente
do caráter popular, em Musashi, Yoshikawa ressalta valores que
alcançam o universo filosófico da formação
do homem contemporâneo. Existe uma convergência no
contexto em que o homem contemporâneo vive e a filosofia a postura
de Musashi diante das dificuldades, desafiando o espírito humano
que, consciente ou insconscientemente, quer vencer para evoluir,
observa Maria Tomimatsu.
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Musashi é
a obra literária mais vendida da história do Japão
mais de 130 milhões de exemplares em suas diversas edições,
além de cerca de 15 versões cinematográficas/televisivas.
Seus principais personagens passaram a integrar o cotidiano e a obra
tornou-se livro de cabeceira e guia da arte de viver para muitas gerações
de japoneses.
Comemorando
o Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos, no próximo
30 de janeiro, vale lembrar que um dos desdobramentos mais famosos de
Musashi vem exatamente do mangá, o quadrinho japonês. A
série Vagabond, criada em 1998 por Takehiko Inoue e editada no
Brasil pela Editora Conrad, é inspirada nas aventuras do samurai
mais famoso do Japão. No arquipélago, a série,
continua a ser publicada semanalmente na revista Shukan Moningu, editada
pela Kodansha. Vagabond já foi indicado e premiado diversas vezes
no universo dos quadrinhos em vários países.
Chiezo Kataoka,
Toshiro Mifune e, mais recentemente, Shinnosuke Ichikawa são
alguns dos atores que representaram o papel de Musashi no cinema e na
televisão ao longo das últimas décadas. A produção
cinematográfica mais conhecida do público sobre o mais
famoso samurai do Japão é, na verdade, uma trilogia estrelada
por Mifune: Miyamoto Musashi (também conhecido como Samurai,
no Ocidente), de 1954; Zoku Miyamoto Musashi: Ichijôji no kettô
(Samurai 2), de 1955, e Miyamoto Musashi kanketsuhen: kettô Ganryûjima
(Samurai 3), lançado em 1956. A produção pode ser
encontrada no Brasil em formato DVD, mas legendada apenas em inglês.
Para
o público, o Musashi de Yoshikawa é adorado, consumido
e conhecido até por gerações contemporâneas
que têm pouca afinidade com a literatura, diz Marco Souza.
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