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Sábado, 31 de julho de 2010
Especial
Musashi: o melhor samurai de todos os tempos está de volta
Obra publicada em volumes completa dez anos de lançamento
no Brasil com 100 mil exemplares vendidos

Por Erika Horigoshi

O samurai mais famoso da história do Japão já foi assunto de livros, minisséries e novelas para TV, longas-metragens para o cinema, matéria de capa de várias revistas, além de ter sido amplamente estudado mundo afora. Miyamoto Musashi é uma lenda no universo cultural japonês que ultrapassou as fronteiras do Japão e, hoje, é um ícone conhecido em vários países admiradores das tradições do arquipélago.

No Brasil, país que conta com a maior comunidade de descendentes de japoneses fora daquele país, não poderia ser diferente. E o cenário é propício para um relançamento importante no mercado editorial: ao completar dez anos de publicação no País, a Editora Estação Liberdade lança, em nova roupagem, a edição em volumes de Musashi, texto de Eiji Yoshikawa traduzido diretamente do japonês por Leiko Gotoda. “A reedição de Musashi no contexto brasileiro vem a constatar a universalidade da essência dos valores éticos transmitidos por meio da personagem histórica que viveu no Japão entre os séculos XVI e meados do século XVII. Universalidade esta que é atemporal, ultrapassando os espaços físico e cultural”, comenta a professora Maria Fusako Tomimatsu, da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Enredo e novidades

Musashi é uma obra extensa: na primeira edição brasileira, contava com dois volumes; já a reedição é composta por três livros assim intitulados: Livro 1 – A Terra • A Água • O Fogo; Livro 2 – O Vento • O Céu; e Livro 3 – As Duas Forças • A Harmonia Final.

O samurai é protagonista de um romance épico baseado na história japonesa, tendo como ponto de partida o episódio da Batalha de Sekigahara. O processo de aperfeiçoamento espiritual e guerreira de Miyamoto Musashi é contado por meio dos desafios encontrados por ele durante o caminho.

Ao mesmo tempo, a obra de Yoshikawa oferece um panorama do Japão em seu momento de unificação nacional sob o domínio dos Tokugawas, atravessando um período de transição que abrange as várias lutas armadas entre daimiôs e o surgimento dos burocratas. Tal percurso mergulharia o país em um isolamento de mais de dois séculos. “O interessante na obra é a sua natureza de enfatizar a dedicação feita de corpo e alma a um propósito, enfrentando os mais diversos obstáculos, o que se liga a todas as formas de estudos e aprimoramento ao estilo japonês. E isso me parece um ideal universal extremamente atraente”, diz Neide Hissae Nagae, professora da Universidade Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp).

A obra-prima de Eiji Yoshikawa foi publicada, inicialmente, em forma de artigos no Asahi Shimbun, totalizando pouco mais de mil episódios entre os anos de 1935 e 1939, posteriormente, reunidos em livros. Nesta reedição, acompanha ainda os três volumes da obra um livreto ilustrado com representações do grande samurai em gravuras ukiyo-e. A edição brasileira de Musashi é a primeira versão integral da obra no Ocidente.

Importância cultural


Escritor Eiji Yoshikawa tornou-se famoso por sua obra-prima, Musashi

“Musashi é um elemento muito característico da cultura japonesa e também uma presença muito marcante no imaginário de várias gerações japonesas”, explica o professor do Centro de Estudos Orientais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (CEO-PUC) Marco Souza. Nesse contexto, o relançamento da obra no Brasil reflete sua importância consolidada no Japão. Mas, ao contrário do que muitos fãs possam pensar, no arquipélago, isso se dá com um caráter mais popular do que propriamente em uma esfera restrita ao literário-cultural. “No Japão, Musashi é classificado mais como ‘literatura popular’, mas acredito que essa obra ainda haverá de ocupar um lugar por muito tempo já merecido no gênero de romance histórico [japonês]”, afirma Neide Nagae.

Segundo Marco Souza, a serialização em jornal para o conhecido formato livro da narrativa de Yoshikawa foi um fator que contribuiu para a popularização mais do personagem que da pessoa real de Musashi. Para o professor da PUC de São Paulo, o trabalho de Yoshikawa foi o início da apropriação por parte da indústria do entretenimento, que levou Musashi para o teatro, o cinema, a televisão, o mangá, o animê e, mais recentemente, para o game do tipo Playstation.

Independentemente do caráter popular, em Musashi, Yoshikawa ressalta valores que alcançam o universo filosófico da formação do homem contemporâneo. “Existe uma convergência no contexto em que o homem contemporâneo vive e a filosofia a postura de Musashi diante das dificuldades, desafiando o espírito humano que, consciente ou insconscientemente, quer vencer para evoluir”, observa Maria Tomimatsu.

 
HQs, TV e cinema
Vários momentos de Musashi: no cinema, na TV e no mangá, o quadrinho japonês – apropriação do personagem literário pelos meios da indústria do entretenimento no arquipélago faz sucesso entre a população até os dias de hoje

Musashi é a obra literária mais vendida da história do Japão – mais de 130 milhões de exemplares em suas diversas edições, além de cerca de 15 versões cinematográficas/televisivas. Seus principais personagens passaram a integrar o cotidiano e a obra tornou-se livro de cabeceira e guia da arte de viver para muitas gerações de japoneses.

Comemorando o Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos, no próximo 30 de janeiro, vale lembrar que um dos desdobramentos mais famosos de Musashi vem exatamente do mangá, o quadrinho japonês. A série Vagabond, criada em 1998 por Takehiko Inoue e editada no Brasil pela Editora Conrad, é inspirada nas aventuras do samurai mais famoso do Japão. No arquipélago, a série, continua a ser publicada semanalmente na revista Shukan Moningu, editada pela Kodansha. Vagabond já foi indicado e premiado diversas vezes no universo dos quadrinhos em vários países.

Chiezo Kataoka, Toshiro Mifune e, mais recentemente, Shinnosuke Ichikawa são alguns dos atores que representaram o papel de Musashi no cinema e na televisão ao longo das últimas décadas. A produção cinematográfica mais conhecida do público sobre o mais famoso samurai do Japão é, na verdade, uma trilogia estrelada por Mifune: Miyamoto Musashi (também conhecido como Samurai, no Ocidente), de 1954; Zoku Miyamoto Musashi: Ichijôji no kettô (Samurai 2), de 1955, e Miyamoto Musashi kanketsuhen: kettô Ganryûjima (Samurai 3), lançado em 1956. A produção pode ser encontrada no Brasil em formato DVD, mas legendada apenas em inglês.

“Para o público, o Musashi de Yoshikawa é adorado, consumido e conhecido até por gerações contemporâneas que têm pouca afinidade com a literatura”, diz Marco Souza.


Serviço: Musashi
Autor: Eiji Yoshikawa
Tradução: Leiko Gotoda
Editora: Estação Liberdade
Páginas: 1,8 mil em caixa com três volumes, mais livreto ilustrado
Preço: R$ 218

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