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Sábado, 31 de julho de 2010
Especial
Símbolos japoneses que só podem ser vistos em São Paulo
O Estado de São Paulo não tem apenas a maior comunidade japonesa do Brasil. Ele é responsável também por abrigar símbolos grandiosos ou curiosos que representam a forte presença nipônica em seu território. Um templo budista, uma plantação de cerejeira, uma biblioteca e até um cemitério são únicos pelo tamanho ou pela exclusividade.

Templo Budista de Suzano: beleza e grandiosidade

O templo Budista Daigozan Jomyoji de Suzano é considerado o maior do Brasil
e impressiona também pela beleza e os detalhes da construção

Basta uma rápida passagem por Suzano, região metropolitana de São Paulo, para perceber a grande presença nipônica na cidade. Nomes japoneses estão estampados em fachadas de comércios de todos os tipos e até em cartazes de candidatos para as eleições municipais de outubro. A Festa das Cerejeiras e da Imigração fazem parte do calendário oficial do município.

Mas é na religiosidade que a cidade do Alto Tietê ganhou um símbolo nacional da cultura oriental. Distante alguns quilômetros do centro, fica o Templo Budista Daigozan Jomyoji, da Associação Paulista da Igreja Budista Nambei Shingonshu. Ele é considerado o maior do Brasil, com seus 250 m².

Construído há mais de 40 anos, graças a ajuda de fiéis de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, o templo impressiona também pela beleza e pelos detalhes. Detalhes que o monge Izeri Kakuzen, que mora há meio século no Brasil, explica pacientemente, dando uma aula sobre o budismo e a sua tradição milenar. Nada está ali por acaso. Cada imagem, cada pedaço da edificação tem um porquê. A arquitetura usada sem avançada tecnologia é um símbolo do que Kakuzen enfatiza ser um dos principais pilares da vida: a sabedoria. “Você morre, mas a sabedoria permanece”, diz, em japonês.

Kakuzen segue um ritual de orações três vezes ao dia, a primeira, às 5h da manhã. Há duas entradas. Uma delas, um grande portão, só se abre quando há visitas de autoridades religiosas. À esquerda do portão, estão fixadas três pequenas construções, cada uma simbolizando divindades: o Seiryu Gonzen, deus da Água; o Godairiki Son, divindade protetora das pessoas e do trânsito; e o Juntei Kanzeon, divindade protetora da saúde.

Um sino é tocado duas vezes ao dia. Às 6h para acordar e às 18h para agradecer por mais um dia de trabalho. Entre as imagens no santuário dentro do templo, está a de nossa Senhora Aparecida.

O templo realiza missa todo terceiro domingo de cada mês, mas está aberto à visitação nos outros dias. “As pessoas vêm para pedir proteção ao casamento, ao negócios, ao namoro”, explica Kakuzen.

(Fotos: Susy Murakami)

 
Mil pés de cerejeiras em uma única propriedade

O lago, dentro da propriedade, ajuda a embelezar a paisagem
 

Gokithi Akisue ao lado de sua mãe centenária

Há 27 anos, Gokithi Akisue comprou quatro mudas de cerejeira em uma festa em São Miguel Arcanjo e levou para o seu sítio em Piedade, a 108 km de São Paulo. E o que começou como um passatempo sem grandes pretensões virou uma plantação de mil pés da típica árvore japonesa. Não há registros de plantação particular maior do que essa no País.

As pequenas mudas, que ele chama de “pés-mãe”, hoje são árvores grandes e foram elas que deram origem às outras. “Comecei para embelezar o sítio”, conta Akisue.

Ele só não imaginava que, de tão embelezado, o local quase viraria um ponto turístico na cidade. O prefeito solicitou a abertura ao público no ano passado. O pedido até foi atendido, mas funcionou apenas por uma temporada. Por falta de estrutura para visitação de grande número de pessoas, a idéia teve de ser abortada. Akisue, formado em farmácia, é professor aposentado da USP, mas ainda dá aulas sobre plantas medicinais em uma universidade do interior de São Paulo.

No espaço que hoje dá lugar às belas árvores, ele já cultivou esse tipo de planta para a indústria farmacêutica. O capricho com a propriedade é visível também nos trilhos feitos para que os visitantes possam caminhar e apreciar a fluorescência das cerejeiras, que ficam ainda mais belas em dias ensolarados.

As árvores ficam no sítio da família, que tem área total de 250 mil m². O lugar não será completamente tomado pelas mudas, já que, de acordo com a lei, um quarto do terreno tem que permanecer preservado com a floresta nativa.

O certo é que, enquanto for possível, a plantação continuará crescendo. De julho até agora, já foram plantadas mais de 300 mudas. Até o final do ano, o objetivo do proprietário é plantar, ao todo, 500 pés e, futuramente, chegar aos 2 mil.

(Fotos: Gokithi Akisue)


A família de Gokithi Akisue reunida em encontro no sítio
 

Único cemitério japonês da América Latina

A pequena cidade de Álvarez Machado, a cerca de 550 km de São Paulo, abriga o único cemitério totalmente dedicado a japoneses na América Latina. A história dele tem início em 1918, com o sepultamento da jovem Massae Watanabe. Nesse ano, também chegaram os primeiros imigrantes japoneses na cidade.

O cemitério foi fundado pela própria colônia, que encontrou ali a solução para os sepultamentos. Na época, ocorria uma epidemia de febre amarela e, quando Shiniti Takei faleceu, foi transportado em uma maca até a cidade mais próxima de Veado (hoje Presidente Prudente) há 15 km para ser enterrado. Como transportar todos os corpos seria missão difícil, resolveram, então, pedir a oficialização do cemitério local para que todos da colônica fossem sepultados ali.

Os irmãos Takashi, Shiuma e Takeshi Ogassawara desmataram o terreno. Os sepultamentos aconteceram até 1942, quando o então presidente da república Getúlio Vargas proibiu novos enterros por considerar ato de racismo.

O único não japonês enterrado no cemitério é um homem, conhecido apenas por Manoel, que morreu defendendo uma família japonesa assassinada por um bandido. Hoje, quem cuida do cemitério é a Associação Cultural e Esportiva Agrícola Nipo-Brasileira de Álvares Machado (Aceam). Todos os anos, desde 1920, é realizado o “Shokon-sai”, que quer dizer “convite às almas para a missa”, uma festa religiosa.

Além de atividades culturais típicas, como dança e música, ao entardecer, são acesas velas em todos os túmulos. A iluminação proporciona uma bela visão.

Há fatos curiosos e misteriosos que acompanham o Shokon-sai desde a sua primeira realização, no dia 15 de julho de 1920. No dia da festa, que acontece no segundo domingo de julho, há uma forte ventania que só se acalma quando as velas são acesas. Durante a celebração, nunca choveu, apenas antes e depois. O cemitério foi tombado pelo Conselho de Defesa de Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo no dia 11 de julho de 1980.


Maior biblioteca japonesa do Brasil

Com 75 mil exemplares, uma biblioteca em São Miguel Arcanjo, distante 180 km da capital paulista, tem o maior acervo de livros japoneses do Brasil. Ela foi fundada há 30 anos pelo empresário japonês Testuhito Amano, que vem periodicamente ao Brasil.

O responsável por tomar conta do local é Katsuharu Oshi, que abre a biblioteca aos sábados das 14h às 17h. A construção fica na colônia japonesa Pinhal e recebe, semanalmente, cerca de 60 visitantes.

Oshi conta que, primeiro, chegaram os livros e só depois, o prédio, de 650 m², foi construído. Ele disse que a vontade de Amano era preservar a cultura de seu país entre os descendentes. “Ele quis fazer a biblioteca para a colônia, porque muitos estavam esquecendo o japonês, então ele fez para que [os descendentes de japoneses] não esquecessem a cultura japonesa”, explica. “Ele gosta bastante do Brasil”.


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