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Por
Aurélio Nomura*
Ao entardecer
de 17 de junho de 1908, fundeava em Santos o vapor Kasato Maru, trazendo
a bordo homens, mulheres e crianças de olhos oblíquos, a
falar uma língua nunca dantes ali ouvida, que curiosos contemplavam
o céu estrelado onde brilhava a constelação do Cruzeiro
do Sul. Na manhã do dia 18, muitos ainda insones, ansiosos ante
o desconhecido, desembarcaram em terras paulistas. Vinham esses filhos
da terra do sol nascente com um destino certo: as lavouras de café.
Na época,
principalmente em São Paulo, ante a pressão dos fazendeiros,
necessitando de braços para as lavouras, procurou-se uma solução,
embora experimental, na iniciativa do presidente do Estado, Jorge Tibiriçá,
que previa a introdução subvencionada de 3 mil japoneses
no prazo de três anos.
Coincidia a
disposição brasileira com a situação de dificuldades
que atravessava o império japonês, às voltas com a
fase de pós-guerra com a Rússia, a expansão demográfica
acelerada em um território exíguo, com capacidade agricultável
mínima, agravada com a estrutura tradicional da família
nipônica, em que só o primogênito se situava na linha
sucessória, herdando, quando na zona rural, as exíguas áreas
para o plantio de arroz que mal davam para o sustento de uma família.
Quando todos
os países fechavam as portas, vetando a entrada nipônica,
o Brasil tornou-se o único país a abrir as suas, embora
sob certas condições, que se revelaram, mais tarde, sábias.
O povo japonês não tinha uma tradição imigratória,
e somente na época da grande metamorfose político-cultural
da revolução de Meiji, iniciou-se uma corrente com a ida
de trabalhadores para as lavouras do Havaí, Estados Unidos, Coréia,
Manchúria, Peru, Canadá e mais tarde para o Brasil.
Assim, a tendência
natural de um povo habitante das ilhas gerou uma desconfiança nos
países receptores. Com o correr do tempo, também aqui entre
nós, vozes respeitáveis levantaram-se, inclusive no Congresso
Nacional, chamando a atenção para o que os americanos já
denominavam o perigo amarelo, para o que concorria à
potencialidade emergente do poderio militar nipônico, da conquista
dos espaços vitais, como conseqüência da Segunda Guerra.
Entretanto,
é mister que se destaque não haver similitude entre a atitude
de outros países, em que existia a preocupação para
que os orientais não se miscigenassem, uma preocupação
ariana da preservação da pureza racial presumida, com o
povo brasileiro, cuja preocupação se situava em pólo
contrário, no sentido de que todos os alienígenas aqui vindos,
no mais curto tempo possível, se irmanassem, integrando-se e dissolvendo-se
na comunhão nacional, tornando-se brasileiros de coração,
com raízes familiares na terra adotiva.
Os imigrantes
que chegavam, sempre tendo Santos como portal de entrada, foram encaminhados
à Zona Mogiana, Vale do Ribeira, Noroeste Paulista, Araraquarense,
Sorocabana, invariavelmente à lavoura. Embora a maioria dos imigrantes
oriundos dos vários países tenha aqui vindo com o objetivo
de enriquecimento rápido para retornar a seu torrão natal,
e com raras exceções, o mesmo tenha sido pela regra no caso
dos japoneses. Um detalhe: as condições sábias a
que nos referimos anteriormente, no contrato de admissão ao País,
modificaram os rumos e o futuro dos imigrantes.
Ao contrário
dos imigrantes que foram para o Havaí, Peru e Bolívia, como
trabalhadores em caráter temporário; o governo paulista
vinculava os que aqui vieram à exigência de que a maioria
fosse constituída de família de agricultores, as quais dispusessem
no mínimo de três adultos aptos às lides agrícolas,
além de um prazo contratual para a formação dos cafezais
em média quatro anos, aos que foram encaminhados às fazendas
na fase em que a onda verde da rubiácea começava a conquistar
o interior paulista.
Torna-se importante
notar que, diferentemente de outros países em que a corrente imigratória
nipônica não se cercou de êxito, aqui entre nós
houve a preocupação da fixação do interesse
dos fazendeiros, do interesse do governo em desenvolver a economia e também
a índole de nosso povo. A saga de nossos imigrantes, todos nós
conhecemos, mas é importante ressaltar o papel de Carlos Botelho,
secretário da Agricultura do Estado de São Paulo, considerado
o pai da imigração japonesa paulista.
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