Matérias Especiais   História da Imigração   História do Japão   História da Culinária   Museus   Opinião
  Opinião
• Luiz Inácio Lula da Silva:
O centenário da imigração japonesa
• Mozart Sales:
Uma realidade maravilhosa
• Alex Canziani:
A saga japonesa: um reconhecimento
• Arlindo Chinaglia:
Relações Brasil–Japão: tempo de renovação
• Luiz Nishimori:
Uma grande relação de amizade
• Xico Graziano:
Japonês amigo
• Aurélio Nomura:
Salve a imigração japonesa
• Antonio Teruo Kato:
Modelo japonês no desenvolvimento brasileiro
• Paulo Skaf:
Amizade e confiança sob o signo da paz e o brilho do sol
• Beto Mansur:
Cem anos de Japão no Brasil
• Yasuo Fukuda:
Mais intercâmbio Brasil–Japão
• Cícero Harada:
Do Sol Nascente à “Terra Brasilis”
• Rogério Nogueira:
"Uma integração para dar exemplo"
• Pedro Tobias:
"Uma homenagem aos japoneses"
• Kiyoshi Rachi:
"A identidade nipo-brasileira"
• Luiz Carlos Gondim:
"Brasil–Japão, a união perfeita"
• João Caramez:
"Cem anos de congraçamento"
• Marco Bertaiolli:
"Os cem anos da mistura cultural"
• Ushitaro Kamia:
"Centenário para unir a comunidade nikkei"
• Vinícius Camarinha:
"Japoneses no Brasil: que sorte a nossa!"
• Paulo Yokota:
"Santa Cruz e o Ano do Intercâmbio"
• Maria Lúcia Prandi:
"A força de duas nações"
• Walter Ihoshi:
"O ano do intercâmbio e das oportunidades"
• Shigueyuki Yoshikuni:
"Centenário só para os velhos"
• Paulo Yokota:
"De decasségui a emigrante"
• William Woo:
"Banzai!"
• José Sarney:
"Parentes consangüíneos"
Japonês amigo

Por Xico Graziano*

Chegou a K-5000, a máquina de colher laranja. Exposta na vitrine do Agrishow, lá estava ela, imponente, espantando os incrédulos. O surpreendente invento nasce com a marca do sucesso. Seu parente próximo, a colheitadeira de café, funciona há 30 anos. Maravilhas da engenharia agrícola.

O berço dessa surpreendente tecnologia mora em Pompéia, interior paulista. Lá vive Shunji Nishimura, um mito do empreendedorismo agroindustrial. Imigrante japonês, em 1948 ele fundou a Jacto, fábrica de implementos agrícolas. “Conserta-se tudo”, dizia a placa estampada em sua oficina.

Naquela época, o algodão dominava o oeste Paulista. A grande crise mundial quebrara a economia cafeeira, abrindo as portas para novas atividades rurais. Durante, pelo menos, duas décadas, a cotonicultura iria capitanear o crescimento do interior. As regiões da Sorocabana e de Paulista, assim conhecidas graças ao ramal da estrada de ferro, tiveram no ouro branco seu alicerce econômico. Embora curto, um apogeu.

Extremamente suscetível às pragas e doenças, a cultura do algodão demanda forte dose de agrotóxicos em sua proteção. Muitos ainda se lembram que naqueles tempos os venenos agrícolas vinham em pó. Nesse ponto, o obstinado Nishimura burilou sua criatividade com perícia mecânica. A primeira máquina polvilhadeira do Brasil utilizava um galão de querosene, daqueles utilizados durante a Segunda Guerra.

Começa assim a história da empresa que, além de liderar o setor nacional, mantém negócios de exportação em 106 países. Curiosa é a origem de seu nome. Acontece que, utilizadas na lavoura para combater pragas, as polvilhadeiras baforavam uma nuvem de pó, assemelhando-se assim ao rastro de fumaça dos modernos aviões que riscavam os céus. Por analogia, batizaram as máquinas agrícolas “a jacto”.

Com o progressivo êxito da nova geração de defensivos agrícolas, diluídos em água, a Jacto lança, em 1966, seu famoso pulverizador costal. Máquina simples, manual, trazia a inovação e a leveza do plástico no tambor da calda de aplicação. Seu pioneirismo e utilidade a assemelham, no ramo dos automóveis, ao fusca. Quem não quis possuir um?

Na década de 1970, chegou novo desafio. Quem conta é o próprio Nishimura, hoje com 98 anos. Paulo da Rocha Camargo, então secretário da Agricultura de São Paulo, desafiou-o a desenvolver uma máquina para colher café. A idéia, aparentemente maluca, floresceu no gênio nascido em Quioto, fazendo-o rememorar o tempo que sangravam suas mãos na colheita dos cafezais em Botucatu, logo quando, fugindo da crise japonesa, aportou ao país em 1932. Dureza do trabalho rural.

A colheitadeira de café, única no mercado mundial, causou compreensível espanto inicial. A maioria dizia que as plantas de café sucumbiriam em poucas safras. Ou que o custo não compensaria nunca o investimento. Progressivamente, porém, as novas lavouras foram se instalando nas áreas planas do cerrado mineiro, propícias à mecanização, incorporando seu uso.

Vários outros produtos pioneiros da Jacto chegaram ao mercado. Mas quem conhece a história da Jacto e de sua colheitadeira de café, entre outras geringonças, sabe que o rumo vitorioso está traçado.

Neste ano, comemora-se o centenário da imigração japonesa. Muitos eventos, bonitos certamente, serão realizados. Mais importante, porém, que os festejos, sempre efêmeros, importa ressaltar que os japoneses, que aqui chegaram para colher café naquele longínquo ano de 1908, ofereceram uma contribuição permanente à agricultura brasileira. O povo japonês é amigo da produtividade do solo.




*É engenheiro agrônomo, mestre em economia rural e doutor em Administração

Apoio:
  © Copyright 1992-2008 - Jornal Nippo-Brasil - Todos os direitos reservados - www.nippo.com.br