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Cem anos de Japão no Brasil

Por Beto Mansur*

Muita coisa aconteceu nos últimos cem anos. A ciência evoluiu bastante, de tal maneira que agora é capaz de copiar algo vivo, igualzinho ao original; progressos tecnológicos antes impensáveis foram obtidos, basta olhar o telefone que levamos no bolso; a velocidade nos fez entender o que é próximo, pois somos capazes de tomar o café-da-manhã em um continente e jantar em outro, milhares de quilômetros e poucas horas depois; e ainda um povo pôde mostrar seu talento e valor com muito trabalho e disciplina. Predicados que resumem a saga dos japoneses após um século no Brasil.

Progressos à parte, desde aquele distante 18 de junho de 1908, quando o navio Kasato Maru chegou ao Porto de Santos com os primeiros imigrantes japoneses, muita água passou por baixo da ponte. Naquele ano, foram 165 famílias que vieram trabalhar em fazendas de café. Hoje, o número beira os 2 milhões de pessoas no Brasil: a maior população japonesa fora do Japão. Só em São Paulo, há mais de 1 milhão deles.

Um privilégio e uma honra para nós, brasileiros. Demos oportunidade para que o japonês pudesse trabalhar, e isso ele sabe fazer bem. Os primeiros imigrantes tiveram uma adaptação difícil. Donos de outros costumes, alimentação, vestimentas e idioma (este último um grande entrave), eles não pretendiam ficar aqui por muito tempo.

Queriam enriquecer e voltar ao Japão. Naquele começo, uma parceria com os fazendeiros possibilitou que os imigrantes comprassem pedaços de terra, o que acabou resultando na permanência definitiva de muitos agricultores.

A primeira geração nascida aqui ainda mantinha inúmeras barreiras e o desejo de retornar ao Japão. A segunda mudou de idéia com a Segunda Grande Guerra. O conflito levou caos ao Japão e eles preferiam ficar no Brasil.

Muitos japoneses vieram para cá nessa época, atraídos por parentes que aqui já estavam. Estima-se que, na década de 30, o Brasil só perdia em número de japoneses para o próprio Japão.

A partir da terceira geração, houve uma abertura maior dos descendentes japoneses à cultura brasileira. Os avós imigrantes trabalharam duro no campo para que seus filhos e netos tivessem respeito e futuro no Brasil. Na década de 60, os japoneses rumaram em direção às cidades para concluir seus estudos e o principal destino foi São Paulo. A década de 70 viu os descendentes japoneses acabarem de vez com o isolamento étnico. Hoje, 61% dos bisnetos de japoneses têm algo de brasileiro.

Tamanho envolvimento nas comemorações do centenário da imigração japonesa se justifica: estima-se que cerca de 1,3 milhão de descendentes de japoneses adotaram o Estado de São Paulo para viver. Além da região metropolitana da capital, essa população também é significativa nos municípios de Atibaia, Mogi das Cruzes, Suzano, Bastos, Marília, Lins, Registro, Araçatuba, Presidente Prudente e Pereira Barreto. Em alguns desses municípios, os orientais chegam a representar cerca de 30% da população.

E, durante todo este ano, a presença japonesa no Estado será ressaltada nas cerca de cem ações desenvolvidas pelo governo paulista, ou que contam com a parceria estadual. Nada, entretanto, vai resumir o que significa a presença do povo japonês entre nós, brasileiros.

Eles nos mostraram uma filosofia, um modo de vida simples e eficiente. Com o trabalho duro desenvolvido nos últimos cem anos, o imigrante japonês ajudou a construir o Brasil, sempre com disciplina e seu jeito discreto e de poucas palavras. Que venham mais cem anos e que eles sejam tão produtivos como foram neste centenário!




*É deputado federal pelo PP de São Paulo e
foi prefeito de Santos por dois mandatos (1997/2004)
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