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Por
Kiyoshi Rachi*
Em
2008, comemoramos o centenário da imigração japonesa.
Para contribuir para um maior entendimento entre os povos, apresentarei
um resumo sucinto do modo de pensar e agir do japonês, aquilo que
se traduz num tal estilo oriental. Como nipo-brasileiro (emocionalmente,
mais nipônico; racionalmente, mais brasileiro) e interessado pela
cultura japonesa, gostaria de elucidar alguns aspectos desse dito estilo
oriental. Para não exagerar no lado elogioso do artigo, é
bom registrar que as populações teutônicas e japonesas
são bastante próximas no que diz respeito à ética
do trabalho.
Os imigrantes
japoneses transplantaram para o Brasil, na formação das
atuais associações culturais, o esquema político-administrativo
da vila rural japonesa, fortemente hierarquizada e dividida em setores.
Essa hierarquia tem por base os ensinamentos do confucionismo, que estabelece
papéis sociais com direitos e deveres bem definidos para homens,
mulheres, pais e filhos, marido e mulher, jovens e velhos. Há uma
moral prática cujas raízes estão assentadas no budismo
chinês.
No Ocidente,
o comportamento é guiado pela ética originada da filosofia
grega e da moral judaico-cristã. Sempre a perseguir os valores
ideais e os mandamentos religiosos, num cotidiano cheio de imperfeições,
jeitinhos, tentações, pecados e imperfeições.
Na conduta oriental/japonesa, não se busca um ideal moral, mas,
simplesmente, pratica-se.
Na concepção
japonesa de vida, há uma idéia de valorizar mais os meios
e nem tanto os fins, como acontece com a concepção ocidental.
Lá, predomina a idéia de não é tão
importante buscar o melhor, a nota 10, o primeiro lugar, mas que, fazendo-se
da melhor maneira possível, pode-se chegar ao máximo.
Assim, o oriental
estuda e trabalha valorizando o processo e nem tanto o fim a alcançar.
Daí a ênfase na disciplina, na perseverança, no esforço
e no sacrifício como meios de se alcançar o melhor no estudo
e no trabalho. Essa mentalidade vem de background cultural composto pelos
princípios do xintoísmo, além do confucionismo e
do budismo.
As diversas
metas de superação dos objetivos mais vitais dão
se na aplicação disciplinada do método, da técnica
e da arte. Aqui, também vale aquele princípio de que, para
se alcançar a simplicidade, cumpre percorrer um caminho bastante
complexo. Nesse tipo de pensamento, alcançar o objetivo é
ótimo, mas, se não alcançou, o importante é
que o indivíduo deu o máximo de si mesmo.
Além
da valorização dos meios, quero destacar, para melhor explicar
o que seria o estilo oriental, uma outra idéia que marca a mentalidade
japonesa. É o pensamento de que nada de bom e de feliz é
conquistado sem sacrifício e sem sofrimento. Os mais famosos heróis
e heroínas japonesas ficaram na história como exemplos de
perseverança, de fidelidade, de dedicação, de suportar
o insuportável.
Principalmente,
valoriza-se o sacrifício pessoal em prol do bem coletivo, ou seja,
da família, da empresa, enfim do grupo como entidade maior. No
Brasil, que ainda falta muito para se ser construído como nação,
impera um forte individualismo, muitas vezes, falam mais alto as conveniências
pessoais e os interesses privados dos mais bem colocados economicamente.
Privilegiado
por conviver em duas culturas diferentes e opostas em muitos sentidos,
nós, da segunda geração de descendentes de japoneses,
temos nossas cabeças dirigidas por conflitos dos mais diversos.
Mas, enquanto
houver a sobrevivência de um pensamento moldado como nipo-brasilidade,
ainda que conflituosa, o modo de ser japonês continuará atuando
em nossa sociedade. Teremos uma oportunidade única de provarmos
nossas qualidades durante as festividades do centenário da imigração
japonesa que ocorrerão em 2008.
A forma, o
modo e o meio precedendo o conteúdo, o fim e o objetivo é
essencial na mentalidade japonesa forjada pelos séculos afora.
Em um país com pouco espaço físico, os japoneses
foram convencidos de que o coletivo deve falar mais alto do que o individual.
Nós,
nipo-brasileiros, enquanto prosseguirmos dando exemplo de união,
de organização e de dedicação e, se não
esquecermos da importância do esforço, da disciplina e do
sacrifício, continuaremos a manter viva a chama da nipo-brasilidade.
Bom para muitos e melhor para nós, nipo-brasileiros, pois acabamos
fortalecendo a nossa identidade.
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