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"Parentes consangüíneos"
Centenário para unir a comunidade nikkei

Por Ushitaro Kamia*

O centenário da imigração japonesa atrai as atenções de todo o Brasil. Mas não podemos esquecer como foi a trajetória até aqui e quais os caminhos a percorrer depois das festividades. Hoje, a cultura nipônica poderia ser mais difundida no País, não fossem as retaliações aos imigrantes durante a Segunda Guerra. Estes provinham das camadas mais populares e se sacrificaram numa terra desconhecida para educar os filhos, que conseguiram uma rápida adaptação à sociedade.

Apesar de todos os esforços de entidades, associações e mídia segmentada, além da consolidação da comunidade em diversos setores profissionais, muitas vezes a nossa cultura ainda é taxada de exótica, ou vista por meio de estereótipos, como o da imbatível performance nikkei nos exames vestibulares, sobretudo nas provas de ciências exatas. Outros estereótipos circulam até hoje, é verdade. Alguns são resquícios das inúmeras dificuldades enfrentadas no passado, como a destruição da sorveteria Gemba, no Recife, ou a desapropriação de todos os bens da família Nagai em Assaí, no norte do Paraná, por ação dos próprios japoneses que não se conformavam com a derrota na guerra.

Neste último caso, Rodolfo Nagai, superando todas as adversidades, construiu uma grande rede de distribuição comercial a ponto de atrair a atenção do Pão de Açúcar, que, ao lado do empreendedor, assumiu o negócio. Poderíamos, aqui, relatar diversas histórias de sucesso, mas este e outros exemplos são também uma vitória de todos nós!

Lamentável é que muitos nikkeis prefiram ignorar a própria origem e vivam de acordo com as circunstâncias, as necessidades do mercado e até as aparências. “Por quê nadar contra a corrente, se estou tão adaptado e feliz?”, racionalizam.

Vivemos em uma nação na qual a convivência com a diferença é saudável, mas a luta para a permanência da cultura japonesa é também uma contribuição para a democracia. É preciso pensar nas novas gerações de descendentes, nas possibilidades e referências que vão encontrar em um mundo globalizado e em contínua transformação.

Com a união de todas as frentes, haveria um reforço ainda maior da identidade da comunidade – ação importante, uma vez que ela costuma ser retratada pela grande imprensa apenas em eventos histórico-culturais. Além de contribuir para a preservação das raízes, a busca do autoconhecimento e da auto-estima, a ação é um ato político, faz parte do processo de cidadania. Vale lembrar que esta prática tão pouco comum nos dias atuais poderá ser exercida também nas eleições deste ano.

Apesar de a comunidade japonesa no País ser a maior do mundo fora do Japão, ela, ao contrário de outras de imigração mais recente, ainda tem pouca representatividade, até mesmo em termos proporcionais, no governo nacional. Aliada à imagem positiva dos nikkeis construída nesses cem anos, a luta conjunta levaria a uma maior conquista neste território também.

Em um sistema democrático, a missão do político é atender às necessidades e aos anseios da população para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. E, sem dúvida, toda e qualquer requisição ganha mais relevância com a mobilização de forças.




*É vereador do Partido Democratas na Câmara Municipal de São Paulo
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