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Por
Shigueyuki Yoshikuni*
Apesar
de toda a imprensa estar dando ampla cobertura sobre o centenário
da imigração japonesa no Brasil, nota-se pouco interesse
por parte de jovens nikkeis. Quando falo jovem, digo pessoas da faixa
de 15 a 50 anos.
Outro dia,
li a declaração de um dirigente de associação
de jovens dizer que estava pouco se lixando às comemorações
ou se a família imperial vinha ou não ao Brasil. Os seus
interesses e os de outros companheiros eram diversos. Não se pode
generalizar, é claro. Aliás, os não descendentes
estão demonstrando maior interesse.
Veja, por exemplo,
o projeto Viva o Japão. Escolas sem nenhum aluno nikkei apresentaram
programas caprichosos. Algumas com alunas vestidas com quimonos confeccionados
com enorme sacrifício financeiro. Outras trazendo grupo de taikô
lá de Londrina ou lotando as dependências da escola com figuras
de origami. Escola sob direção e com professores nikkeis
permaneceu sem nenhuma iniciativa, sem nenhuma atividade para lembrar
essa data tão comentada. É, no mínimo, lamentável
que isso aconteça.
Vendi inúmeros
exemplares do livro A Saga de Shuhei Uetsuka, o Pai da Imigração
Japonesa e notei que os compradores eram, na maioria, nisseis. A edição
em língua japonesa está sendo mais vendida, por incrível
que pareça, porque dominar aqueles complicados ideogramas não
é para qualquer um. Não gosto de ler, era a
resposta de sanseis, moços ou moças.
Que esperar
dessa geração que não se interessa pelos primórdios
da imigração, recheados de sacrifícios? Não
os condeno por estarem apegados só ao presente. Afinal, todos nós
estamos nessa luta diária de sobrevivência.
Além
disso, há, no livro, um adendo da tradutora Rosa Sonoo, em que
ela dá uma útil lição da língua e da
cultura japonesa. Indispensável para quem estuda ou pretende aprender
o japonês. E conta os caminhos sofridos para publicar o livro, que
ela não pôde ver concretizado, pois faleceu logo após
concluída a tradução. Mas deixou-o completo, pronto
para a publicação. Lamento que toda essa experiência
seja relegada ao esquecimento nas páginas de um livro se não
forem lidas por alguém e a experiência transmitida a terceiros.
O filósofo
Sussumu Miyao diz, em seu livro Nipo-Brasileiros Processo de Assimilação,
editado em 2002, que, nos meados deste século, os nikkeis estarão
todos miscigenados e a comunidade como hoje se apresenta tende a desaparecer.
E qualquer um pode constatar a veracidade dessa afirmação.
Confira os editais de proclamações de casamento. Em dez
casais envolvendo elementos da comunidade nikkei, só dois são
nikkeis. Em oito, um dos cônjuges é de outra etnia. Não
sou contra, mesmo porque minha filha é casada com um não
nikkei. E essa tendência é até meritória para
a completa integração na sociedade brasileira. E quando
um dos cônjuges é de outra etnia, raramente participam do
Bunkyo ou de outras atividades relativas à colônia.
Por isso, até
entendo como está difícil esgotar uma edição
do livro de apenas 3 mil exemplares, em uma população de
nikkeis de 1,5 milhão de habitantes. Deu nos jornais: recentemente
um kaikan da capital foi extinto por falta de associados e seus bens doados
a uma instituição beneficente. E outros não demorarão
a seguir o exemplo por falta de interessados. É a queixa generalizada
de dirigentes das associações. É só
questão de tempo, afirmam, pesarosos.
Assim, diante
desse quadro, não é de se estranhar o desinteresse pela
celebração do centenário da imigração
pela geração mais nova. O desinteresse é demonstrado,
inclusive, no Japão, até pelos não jovens, pois parece
que eles se sentem incomodados em serem lembrados de terem expulsado parcela
de patrícios por motivos econômicos, quando agora são
uma potência mundial, a segunda mais rica do planeta.
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