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Banzai!

Por William Woo*

Quando em 1908 Tomi Nakagawa embarcou no Kasato Maru contava pouco mais de dois anos de idade. Ela não tinha idéia de que partia para um país onde o por-do-sol é um espetáculo grandioso. Vindas do porto de Kobe, 780 pessoas viajaram para o Brasil, deixando para trás o milenar país onde o nascer do sol é conhecido com um dos maiores espetáculos da terra.

Os pais de Tomi e seus companheiros de viagem levavam no coração a certeza de que o poente traz a promessa de um novo dia pleno de luz. Tomi, última sobrevivente dos pioneiros imigrantes, morreu em 2006, a poucos dias de completar cem anos, e deixou 74 descendentes, entre filhos e bisnetos. Todos brasileiros. Todos japoneses.

A bela família formada por Tomi é a prova viva de quão proveitosa foi a viagem, que levou 52 dias em 1908 e que completará cem anos em 2008. O Brasil, hoje, abriga o maior contingente de pessoas de origem japonesa fora do Japão. A festa do centenário está sendo preparada por todos, brasileiros, nikkeis e governos, com a alegria de poder celebrar a união de duas culturas profundamente mescladas, ainda que mantidas suas diferenças.

Os traços da cultura japonesa são encontrados em todos os cantos do Brasil e a fraternidade e integração são marcas de um perfeito entrosamento cultural. O Brasil adotou o karatê, o judô, as lutas marciais e difundiu suas práticas. Hoje, esses esportes são ensinados em muitas escolas infantis brasileiras por infundir em seus praticantes o cultivo da disciplina e do respeito.

Na culinária, as iguarias japonesas convivem, em muitos restaurantes, ao lado do arroz e do feijão, do torresmo e da mandioca. A amizade fraterna que une os dois povos se revela nítida na adoção do karaokê por pessoas de todas as idades.

Os primeiros imigrantes chegaram ao Brasil para trabalhar na lavoura e hoje se contam aos milhares seus descendentes que exercem atividades de nível universitário.

Porém, no início dos anos 90, o baixo desempenho da economia brasileira levou muitos filhos da primeira e segunda gerações dos imigrantes a empreender a viagem de volta. Deixaram aqui sua família, seus filhos e sua pátria em busca de melhores condições de vida. Em busca de um novo dia ensolarado, pleno de esperança.

Muitos são os problemas enfrentados por esses brasileiros na terra de seus avós. Em dez anos de atuação, um serviço de apoio e acompanhamento da saúde desses trabalhadores, denominado disk-saúde, com sede no Japão, atendeu a mais de 11 mil casos em que a depressão era a queixa predominante.

As autoridades brasileiras estão atentas a esses problemas. No âmbito da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, por exemplo, estão sendo tomadas medidas para encontrar uma solução conjunta Brasil-Japão para diversos problemas enfrentados por esses corajosos brasileiros de origem japonesa. Um deles refere-se à previdência social em que se busca a extensão da proteção previdenciária aos dekasseguis, contribuintes da seguridade social, mas que não têm direito aos benefícios oferecidos pelo sistema.

Na festa do dia 18 de junho de 2008, um dos membros da família imperial japonesa, o príncipe Naruhito, será recepcionado pelo presidente brasileiro. Sua presença confirma a importância do evento e demonstra a consideração do Japão pelos filhos daqueles que um dia, por razões econômicas, foram obrigados a deixar sua terra natal.

Será uma ótima ocasião para festejar esses cem anos de convívio, mas deverá ser vista também como uma excelente oportunidade para estabelecer soluções para as questões que afligem os nikkeis que daqui partiram em busca do sol que se levanta sempre e traz um dia pleno de esperança. Akimashite shinen omedeto gozaimassu.




*É engenheiro mecânico, bacharel em Direito e deputado federal do PSDB por São Paulo
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