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Antonio
Delfim Netto *
Tenho
admiração e respeito pelo trabalho realizado pelos imigrantes
japoneses para o desenvolvimento do Brasil. Aportando aqui como mão-de-obra
destinada à cafeicultura, logo se transformaram em pequenos produtores
e se adaptaram ao modo de vida dos brasileiros nos centros urbanos.
Entre
as características desses imigrantes, duas chamam a atenção:
o apego à terra e a preocupação com a educação
dos filhos. São características da cultura japonesa, e constituem
o pano de fundo para a compreensão da história da imigração
japonesa neste país.
Não
é exagero atribuir a esses imigrantes uma valiosa contribuição
no nosso desenvolvimento, notadamente na evolução da agricultura.
No governo conheci de perto o papel desempenhado por essa comunidade no
abastecimento dos centros urbanos, através do sistema cooperativista.
Foi
um sistema importante para os pequenos produtores, fornecendo-lhes sementes,
adubos e defensivos, além de técnicas de cultivo, informação
e canal de comercialização. Mais recentemente, além
do papel que continua a desempenhar no abastecimento, essa comunidade
vem aprimorando a produção de culturas intensivas em tecnologia,
conhecimento e dedicação, como frutas, flores, legumes e
hortaliças.
Ao
lado da intensa participação dos imigrantes na história
agrícola, o Japão tem contribuído continuamente para
o progresso desse setor. O programa mais conhecido foi o Prodecer, que
contou com forte financiamento daquele país. O seu principal objetivo
era a expansão da fronteira agrícola do Cerrado e o seu
aproveitamento para a produção de grãos.
Sinto-me
recompensado por ter dado o passo inicial, em 1972, para a concretização
desse programa. Naquele ano foi assinada a carta de intenção
entre o Ministério da Fazenda e a Federação Nacional
das Cooperativas do Japão (Zenchu) para a exportação
de milho. Por esse protocolo o governo se comprometia em investir na infra-estrutura
dos terminais portuários. Esse compromisso deu origem ao Programa
dos Corredores de Exportação, que contou com financiamento
japonês.
Os
investimentos programados foram executados no cronograma previsto. Ainda
no mesmo ano o Ministério da Agricultura do Japão selecionou
regiões adequadas para a implantação de projetos
de produção de alimentos nos Cerrados. Estava desenhado
o projeto.
O
rápido crescimento econômico na época e as imensas
possibilidades de expansão agrícola despertaram interesse
do empresariado daquele país.A Federação das Organizações
Econômicas do Japão (Keidanren) instituiu o Comitê
para o Desenvolvimento da Cooperação Agrícola Brasil-Japão.
O seu presidente, Toshiwo Doko, foi posteriormente homenageado pela Embrapa,
que deu a denominação de Doko a uma nova variedade
de soja por ela desenvolvida, hoje utilizada em todo o Brasil.
No
Ministério da Agricultura, em 1979, foi lançado o primeiro
projeto do Prodecer na região de Paracatu, Minas Gerais, com a
presença do ministro da Agricultura do Japão, o saudoso
deputado Michio Watanabe. Ele foi um grande amigo do Brasil e deu-nos
uma ajuda inestimável na crise cambial de 1982, então como
ministro da Fazenda.
O
Japão financiou ainda uma série de projetos agrícolas,
como o Programa de Irrigação (Profir), os projetos de cooperação
para o aprimoramento técnico, incluindo pesquisas genéticas,
remanejamento florestal e implantação do cultivo da maçã.
Foi firmado o contrato do financiamento pioneiro no exterior do Norinchukin,
Banco Cooperativo Japonês, para o BNCC - Banco Nacional de Crédito
Cooperativo.
Na
Secretaria do Planejamento da Presidência da República ao
iniciar, em 1982, o estudo de viabilidade da região do Grande Carajás,
com o apoio técnico e financeiro da Agência de Cooperação
Internacional do Japão (Jica), foi dada a devida ênfase ao
desenvolvimento agrícola de toda a região e a sua integração
com o transporte ferroviário de minério de ferro.Ainda com
a cooperação japonesa foram desenvolvidos os projetos de
irrigação na Bacia do São Francisco. Todos esses
projetos foram projetos executados e constituíram um apoio importante
em prol da nossa agricultura.
Atualmente
o Brasil finaliza as negociações de um grande financiamento
concessional, com a Japan Bank for Inter-national Corporation (JBIC),
para pesquisa e ampliação da produção de energia
limpa a partir de fontes renováveis de base agrícola. O
Japão, que depende da importação de energia, tem
grande interesse na área de bioenergia, como etanol e biodiesel,
em que o Brasil é muito competitivo. Esperamos que ele seja nosso
parceiro estratégico e comercial muito relevante.
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