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Teruo
Monobe*
A
história registra que a esquadra de Cabral descobriu as terras
brasileiras devido à calmaria, que significa a ausência dos
ventos e das marés. A descoberta resultou de algo indesejado.
Outra
coisa indesejada ocorreu na colonização, que de acordo com
alguns historiadores, foi feita com pessoas e famílias que não
desejavam vir de livre vontade para a nova colônia. O fato é
que a colonização obedecia a uma lógica cruel: explorar
a qualquer custo uma riqueza imensurável com mão-de-obra
indesejada.
Pouco
mais de quatro séculos depois de Cabral, os habitantes de Cipango
(assim chamado pelos portugueses no século XV) começaram
a aportar no Brasil. A história passada de pais para filhos é
conhecida: o Brasil foi vendido aos potenciais imigrantes japoneses como
o paraíso tropical. A outra história, também verdadeira,
é que os japoneses vieram para o Brasil porque não tinham
mais condições de permanecer no Japão.
A
realidade hoje é que essa combinação de ilusão
com as dificuldades do país de origem resultou em uma das mais
bem sucedidas histórias da imigração no Brasil. No
ano que antecede o centenário da imigração, vale
a pena relembrar essa história feita de sangue, suor e lágrimas.
A história de luta e perseverança por parte dos primeiros
asiáticos em terras brasileiras, portanto, desmistifica o que parece
ter sido uma história escrita por linhas tortas.
O professor de Sociologia, Rui Sano, menciona em seu trabalho que desde
meados do século XIX estava ocorrendo no Japão a desintegração
das camadas rurais, que se acelerou com a Restauração Meiji
(1868) e sua política de industrialização e urbanização
extremamente rápidas. Com sói acontecer nesses casos, o
setor agrário era penalizado, tendo que arcar com os custos dessa
modernização, financiando com elevados impostos. Descapitalizado
e sem maiores perspectivas, os camponeses não viam outra solução
senão procurar novas oportunidades em qualquer lugar.
A
vontade de emigrar por parte dos camponeses era correspondida pela política
do governo da época que via na emigração uma forma
de minorar as tensões sociais. Assim, o contato com diversos governos
estrangeiros para possibilitar a emigração legal e o programa
de incentivo à emigração conduzido pelo governo se
fizeram efetivos, e assim, ainda em 1868, japoneses chegavam ao Havaí
e à ilha de Guam, então uma possessão alemã.
Os primeiros imigrantes para a América do Sul chegaram ao Peru,
talvez por estar na costa do Pacífico e por ser rico em pesca.
No
popular, se diz que à fome corresponde a vontade de comer. Se no
Japão sobrava mão-de-obra, no Brasil, faltava, principalmente
no setor cafeeiro. Parece coincidência histórica, e talvez
seja mesmo, mas a escravidão havia sido abolida somente 20 anos
antes da chegada dos primeiros japoneses. Dessa forma, duas realidades
mostradas pela história fazem sentido: a alocação
dos imigrantes para as fazendas e o tratamento pouco amistoso dado aos
trabalhadores.
Essa
é a primeira parte da história dos imigrantes japoneses,
que explica a concentração de sua colônia em São
Paulo. Mas, de acordo com outros documentos históricos, o fluxo
migratório intensificou-se após 1930, quando a imigração
de europeus (espanhóis e italianos) se reduziu.
De
acordo com esses dados, entre 1932 e 1935, 30% dos imigrantes vinham do
Japão. Nesse mesmo período, a partir de 1931, japoneses
começaram a chegar no Pará, com o intuito de promover o
desenvolvimento econômico regional.
De
acordo com estudos da professora Tânia Quintaneiro, da Universidade
Federal de Minas Gerais, em 1940, a concentração de imigrantes
estava em São Paulo, com 94% do total, sendo 87% envolvidos na
agricultura. Desde os anos de 1930, os imigrantes estavam envolvidos com
a produção e exportação de algodão,
sendo o Japão um dos grandes importadores desse produto agrícola.
A
força da imigração japonesa pode ser vista na aplicação
de modernas técnicas agrícolas a partir dos anos 1940, e
no associativismo na forma de cooperativas agrícolas. O panorama
político começou a mudar na década de 1940, com a
eclosão da Segunda Guerra.
Hoje,
ao constatar o progresso agrícola do Brasil, quando se fala em
alimentar o mundo, todos olham a contribuição dos imigrantes
japoneses, que começaram com o café, diversificaram com
o algodão, e posteriormente, com a soja e demais produtos hortifrutigranjeiros.
Por trás da estereotipada denominação de verdureiros
que somos sempre objeto, está a verdadeira vocação:
o amor à agricultura e, por tabela, à pátria que
acolheu e tratou os imigrantes.
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