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Cronologia: As eras no Japão
• Era Kamakura (parte 3)
Habitações da cidade medieval de Kamakura
Alto nível cultural da classe dos samurais é comprovado pelas descobertas das escavações; guerreiros trajavam-se de forma simples e faziam uso de diversos utensílios na vida diária

A cidade de Kamakura tem uma localização privilegiada. De um lado, as montanhas; de outro, o mar, ou seja, um verdadeiro forte criado pela natureza. Na principal avenida da cidade, 30 metros de largura unem o mar ao Templo Tsurugaoka Hachiman, onde se cultua o deus protetor da família Minamoto. Ao longo dessa avenida, perfilavam-se as residências dos principais samurais e, perto do templo, erguiam-se os edifícios do xogunato. A família Hôjo possuía a morada principal de Kamakura e uma casa de campo na periferia da cidade.

As residências dos samurais tinham, normalmente, cerca de 3.600 m2 e eram cercadas por valetas ou muros de barro de formato quadrado ou retangular. Exceto nos templos budistas, as telhas ainda não eram usadas. Dentro do cercado, ficava a casa principal; nos fundos, o depósito e o estábulo, assim como alguns poços. Poucos recintos eram forrados com o tatame, a maioria tinha piso de madeira no chão.

Observam-se algumas padronizações nos materiais de construção das residências. Esse tipo de construção era chamada de estilo samurai, ou seja, bukezukuri. Nas casas de campo, eram realizados saraus, festas e reuniões para jogar o sugoroku, um jogo de dados.

Sanetoki Kanazawa, do clã Hôjo, dedicou-se à educação dos monges e dos filhos de samurais, construindo uma escola e uma biblioteca no terreno de sua casa de campo. Kanazawa importou sutras e livros com ensinamentos de Confúcio. Uma parte desse acervo resistiu ao tempo e pode ser vista ainda hoje.

Trajes

Os trajes dos samurais – chamados de kariginu – eram bem mais simples que os da nobreza e de fácil movimentação. O povo também, a exemplo dos samurais, trajava-se de forma simples. As mulheres não usavam junihitoe, os vários quimonos sobrepostos que as mulheres nobres vestiam. Elas usavam o quimono simples e leve chamado de kosode. Calçavam uma espécie de chinelo de palha chamado zôri; ou tamanco, chamado geta. As camadas menos favorecidas da população andavam descalças.

Hábitos alimentares

Os poços de uso do povo não eram cavados em terreno rochoso, eles utilizavam água de poços de terreno arenoso, com cerca de 2 metros de profundidade. A qualidade das águas da região de Kamakura não era boa. Há o registro de que a água era comercializada em carroças.

Com o desenvolvimento das técnicas de escavações arqueológicas, podemos saber muitos dos hábitos alimentares do povo da época. Eles se alimentavam de: carne de veado, javali e texugo; diversos tipos de peixes; moluscos e crustáceos; cereais e frutas. As arcadas dentárias com desgaste dos dentes molares comprovam que os alimentos dessa época eram mais duros. Foram encontrados em escavações pratos, moringas, tigelas com sulcos (ralador) de cerâmica e, ainda, porcelanas importadas da China. As refeições eram feitas duas vezes ao dia. Como adoçante, eram utilizados mel, pó de caqui seco e cipó doce (amakazura). O hábito de tomar chá foi difundido pelos monges da seita zen-budista.

Atividades literárias

Utensílios e objetos tais como apetrechos para cerimônia do chá e objetos religiosos, como terço de contas, tabuleiro de gô (xadrez japonês) encontrados nas escavações indicam o alto nível cultural da classe dos samurais.

Na escultura, destacam-se os nomes de Unkei (?–1223) e Kaikei (1183–1236), os dois maiores escultores da Era Kamakura que criaram estátuas (niou) para o templo Todaiji, em Nara. Ambos deixaram verdadeiras obras-primas desse período histórico japonês.

Na literatura, foi compilado por Fujiwara-no-Teika (1162–1241), em 1205, a antologia de poemas Shin Kokin Waka Shû (Nova antologia de poemas oficiais), de 20 volumes. Os poemas são tecnicamente muito bem elaborados, prezando demais a estética. A antologia Hyakunin Isshu (Um poema de cem poetas) – apreciada durante muito tempo por nobres e samurais – também foi compilada por Fujiwara-no-Teika. O terceiro shogun, Minamoto-no-Sanetomo (1192–1219), por sua vez, deixou para posteridade a antologia de poemas de alto valor literário Kinkai Waka Shû (Antologia de poemas de um ministro de Kamakura).

Não se pode deixar de mencionar o famoso romance Heike Monogatari (Contos da família Heike), uma obra-prima da era medieval do Japão. O enredo é centrado na glória e na decadência do clã Taira. As cenas de guerra são narradas com emprego abundante de kango (palavras de origem chinesa) e onomatopéias que dão ao texto maior dinamismo. A obra Heike Monogatari tornou-se conhecida no Japão todo devido aos biwa hôshi (espécie de menestrel ou monge de baixa classe, que ganhava o seu sustento narrando histórias ao som de instrumento de corda chamado biwa).

Yoshida Kenkô (1283–1350) fala da vida dos samurais da região de Kantô, dos povos nômades e da política em suas crônicas reunidas no livro Tsurezure-gusa (Crônicas de um ocioso). Ele critica o sistema político vigente, que leva o povo à miséria, obrigando-o a tornar-se fora da lei e ainda aplica penas por seus crimes.

Outra obra de destaque dessa época, é Hôjô-ki (Diário de um eremita), de Kamo-no-Chômei, com suas expressões introdutórias muito conhecidas: “A correnteza do rio nunca cessa, e as águas nunca são as mesmas”, numa alusão à efemeridade da vida. As sutras e os textos de obras chinesas eram lidos em grande quantidade pelos monges que tinham ido à China para estudar.

A Era Kamakura foi a época de transição, em que as artes, exclusividade da nobreza, passaram a fazer parte da camada dos samurais, dos monges e do povo em geral.

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