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De colônia em colônia, a aventura da família Hakkodan
No início da década de 30, Takeno Mitsuishi e seus
filhos alegravam imigrantes com teatro e dança

Família Hakkodan: peças originais ou
adaptadas do Kabuki e do Kyogen

(Fotos: Museu Histórico da Imigração Japonesa)

“Siga direto toda vida”, um lema de Takeno e de seus três filhos, ao criar o Hakkodan e percorrer colônia a colônia, levando teatro e dança aos seus conterrâneos.

Novembro de 1934. Na zona oeste do Estado de São Paulo, onde, dez anos atrás, era selva virgem, naquele momento passava uma ferrovia e reunia imigrantes de diferentes procedências. Os cafezais e as plantações de algodão preenchiam o horizonte.

Nesse cenário, caminhavam a mãe, Takeno Mitsuishi, de 35 anos, e seus três filhos, de 13, 10 e 7 anos, respectivamente, carregando, nas costas, a bagagem colocada em sacos de farinha de trigo e um shamisen.

Caminhavam sem lugar para descansar, até que chegaram a um bosque e sentaram à sombra da árvore. Da sacola, a mãe retirou uma laranja, descascou e começou a chupá-la.

Logo depois, o grupo levantava e recomeçava a caminhada. Mãe e filhos seguiam viajando de colônia em colônia. Não havia outro meio de transporte além de caminhar. A mãe tinha o costume de pensar em novos números para sua representação enquanto caminhava.

Perdida em seu pensamento, ela nem percebeu a aproximação da carroça dirigida por um moço negro. Demorou a entender suas palavras, mais preocupada com os filhos, que ainda não estavam acostumados com pessoas de cor diferente. Até pensou em recusar a oferta de carona, mas mudou de idéia quando o carroceiro argumentou que o próximo povoado estava muito longe dali.

Subiu na carroça com os filhos, mas se sentiu desconfortável quando ela começou se movimentar. O caminho esburacado provocava solavancos que jogavam o corpo para todos os lados. Depois de um longo trecho, a estrada dividiu-se em três direções. “Eu vou para a esquerda”, disse o carroceiro e, por isso, a família teve de descer. “Siga direto toda vida”, recomendou o rapaz, indicando para a estrada do meio.

“Siga direto toda vida.” Com certeza, esse era o único caminho dela, uma artista. “Não havia outro caminho, senão esse”, refletiu Takeno enquanto mirava a estrada que se abria à frente.

Continuou caminhando e, ao anoitecer, chegou à colônia japonesa: um local com várias casas espalhadas, algumas feitas de tijolos, outras de sapé recém-construídas. Bateu na porta de uma delas. De dentro, o dono da casa pensou ser mascate e respondeu que não desejava fazer compras. Takeno explicou-lhe que era a família de teatro e dança e queria saber onde morava o presidente da associação local.

“É muito longe, é melhor ficar por aqui”, recomendou o dono da casa. Além da pousada, ofereceu-lhe comida. Assim foi o começo do grupo de teatro e dança Hakkodan, no final de 1933.

Sustento da família

Takeno Mitsuishi, quando criança, fazia parte de um grupo feminino mambembe de Kabuki chamado “Chinkoza”. Adotou o nome artístico de Onoe Kikunobori, numa referência ao famoso ator de Kabuki Onoe Kikugoro. Casou-se com Seijiro Mitsuishi e deixou o grupo de teatro.

Era a fase áurea da imigração japonesa em seu período anterior à Segunda Guerra. Em 1932, chegou a família Mitsuishi, com sete membros, rumando para as fazendas de café na região de Lins. O trabalho pesado prejudicou a saúde de marido. Era final de 1933 e Takeno lembrou-se de seu shamisen, até então deixado de lado, como forma de garantir o sustento da família. No início do ano seguinte, a filha de 7 anos juntou-se ao grupo formado pela mãe e os dois filhos mais velhos. Os outros dois menores ficavam com o pai.

Para as representações das peças e danças, não possuíam roupas apropriadas. Assim, improvisavam, recortando tecidos de várias cores em formato de flores para enfeitar as roupas. A peruca era feita de panela velha de alumínio, adaptada ao formato da cabeça e forrada com algodão. Nela, eram coladas as fibras de sisal, desfiadas e pintadas de preto, como se fossem cabelos. Dificilmente alguma colônia dispunha de palco, sempre tinham de improvisar.

Constava da programação duas peças curtas de teatro (drama), intercaladas por um número de dança clássica. As peças eram criadas pelo próprio grupo, ou adaptadas do Kabuki ou do Kyogen. Não era fixado o preço da entrada. O público envolvia o dinheiro num pedaço de papel e jogava-o no palco. Repetiam um costume japonês, principalmente, do interior do país.

O grupo Hakkodan foi muito popular entre os nipo-brasileiros. Calculava-se que, no Estado de São Paulo, em 1940, havia cerca de 480 colônias japonesas e, dessas, aproximadamente 300 eram visitadas pelo menos uma vez ao ano.

Em 1942, com o início da Segunda Guerra e as leis restringindo a circulação e a reunião de descendentes de países do Eixo, as atividades do Hakkodan foram afetadas.


NOTA DA REDAÇÃO
As fontes para os textos são: Texto de Masao Daigo, “Hakkodan no Tanjyo”, publicado no livro Coronia Gueinoshi, vários autores, edição da Comissão de Publicação do Coronia Guenoshi, 1986, São Paulo.
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