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Vida de imigrante e o tempo para poesias e romances
“A produção literária dos nipo-brasileiros é pobre na parte de romances, mas intensa na poesia”, diz Sumu Arata

Haiku é um poema curto de 17 sílabas, dividido em 3 versos distribuídos em 5-7-5 sons cada. Não tem rima, nem título e tem na natureza a sua fonte de inspiração (em geral, as estações do ano, chamadas de kigo). Em português, são chamados de haicai ou haikai, e nem sempre fazem referências às estações do ano.

O tanka é formado por 31 sílabas, com versos de 5-7-5-7-7 sons, respectivamente. Sua origem está no waka, também de 31 sílabas, poesia praticada pela aristocracia. O Hino Nacional japonês, Kimigayo, é um poema tanka.


Nempuku Sato, pioneiro do haiku: montou escola, revista e dava aulas

Kikuji Iwanami, pioneiro do tanka no Brasil: imigrante chegou em 1925

Arata: “A maioria só podia se dedicar nos feriados, domingos e dias de chuva”

(Fotos: Museu Histórico da Imigração Japonesa)

Os poemas nos formatos haiku e tanka caracterizaram a produção literária dos imigrantes japoneses. Foram poucas obras em prosa. “A produção literária dos nipo-brasileiros é pobre na parte de romances, mas intensa na área da poesia, primeiramente em haiku e depois em tanka”, afirma Sumu Arata, 91, que, há três anos, pesquisa a história literária dos imigrantes japoneses enfocando a prosa.

A parte dos romances, de acordo com Arata, caracteriza-se por obras autobiográficas, muitas delas publicadas em capítulos nos jornais e periódicos (inclusive em revistas literárias). “A avaliação que se pode fazer desses trabalhos é que eles seguem o estilo da época, sem chegar a criar, vamos assim dizer, um ‘modo de imigrante’. A maioria era amadora e se dedicava à escrita nos feriados, domingos, dias de chuva e, portanto, não deve ser comparada aos autores do Japão. Ao mesmo tempo, quase todos são lavradores, e temos de considerar o baixo nível de estudos e a experiência de vida limitada, se comparados à metrópole.”

Já a área da poesia era mais acessível aos imigrantes. “É um hobby fácil de cultivar e, no caso do tanka, o método mais fácil de expressar o sentimento momentâneo, ao sentir prazer, ao ficar triste. Já aqueles que cultivam o haiku, com versos mais curtos, buscam registrar em poesia um determinado momento, especial ou corriqueiro”, afirma Arata.

Conta que o primeiro registro de haiku no Brasil foi de Shuhei Uetsuka, representante da Companhia Imperial de Colonização no Brasil que, junto com Ryu Mizuno, comandou a vinda da primeira leva de imigrantes, em 1908, a bordo do Kasato Maru e foi responsável pela formação do núcleo colonial de Promissão. Pessoa sensível, conseguiu traduzir em poesia o sofrimento dos compatriotas. Um dos seus poemas conta que, ao chegarem ao porto, pensaram estar sendo recebidos com fogos de artifícios, depois descobriram que era época de festa junina.

O mestre pioneiro do haiku foi Nempuku Sato, que chegou ao Brasil em 1925. Ao emigrar, recebeu a incumbência de seu mestre para que atuasse na difusão do haiku e foi o que fez. “Ele foi o único profissional literário”, afirma Arata, citando que, além de participar de encontros e palestras, Sato montou a escola Hototsugui (uma das principais correntes de haiku no Japão) e lançou a revista Kokage, que tinha mais de 1.200 leitores e lhe rendia recursos para se sustentar. Em 1979, com a morte de seu líder, ela foi sucedida pela revista Asakage. Além de Nempuku Sato, foram montadas outras associações (que discordavam de suas orientações puramente objetivas) e pequenos grupos que editavam (e editam) periodicamente as próprias revistas.

É importante destacar que o haiku, chamado no Ocidente de haicai, ou haikai, tem grande penetração no público de língua portuguesa. Parte segue o mesmo esquema das associações (como o Grêmio Haicai Ipê), outros lançam mão da internet para as trocas de informações. (Veja mais na seção Haicai, pág. 3, deste caderno.)

O mestre pioneiro de tanka no Brasil foi Kikuji Iwanami, que chegou ao País em 1925. Foi para a colônia Aliança, reunindo, dois anos depois, os interessados em tanka. Lançou, em 1937, a revista Yashiju, especializada em tanka, de circulação nacional. Residindo na região de Campinas e depois em Mogi das Cruzes, atuou intensamente para a difusão do tanka.

Outro pioneiro foi Teijiro Suzuki (pseudônimo Nanju), que chegou em 1906 e, graças às suas orientações, foi possível a vinda de imigrantes japoneses ao Brasil. Formado em literatura no Japão, teve produção intensa em prosa e tanka. Arata lembra que Suzuki nunca se esqueceu de seu primeiro amor (faleceu aos 91 anos), uma mocinha do Japão que conheceu aos 14 anos de idade e nunca teve coragem de se declarar (mesmo num encontro 30 anos depois). Ele escreveu um romance (publicado na revista Nosson, em capítulos) e centenas de tankas sobre esse primeiro amor (que nunca soube se foi correspondido).


NOTA DA REDAÇÃO
As fontes para os textos são: Cronologia da Imigração Japonesa no Brasil, Centro de Estudos Nipo-Brasileiros, 1996, tradução de Katsunori Wakisaka e Coronia Gueinoshi, vários autores, edição da Comissão de Publicação do Coronia Gueinoshi, 1986, São Paulo. Fotos do livro Coronia Gueinoshi.
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