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A vez das mulheres nos programas de TV
Quem não se lembra de Imagens do Japão e Japan Pop Show, sucessos dos anos 70 comandados por Rosa Miyake e Suzana Matsuda?

Rosa Miyake (à cima) e Suzana Matsuda: concorrentes na programação dominical

(Fotos: Museu Histórico da Imigração Japonesa)

Em matéria de qualidade, não foram os mais primorosos. Mas tinham os seus fãs também fora da comunidade nikkei. Concorrentes na grade da programação dominical, Imagens do Japão e Japan Pop Show tinham em comum as belas apresentadoras, esposas dos donos do programa.

Os nipo-brasileiros começaram a aparecer na telas de televisão em outubro de 1970, na TV Tupi, canal 4, aos domingos, das 12h às 15h30, com o programa Imagens do Japão, produzido pela Okuhara Production (Mário Okuhara).

A família Okuhara vivia um momento bastante especial: nesse ano, os irmãos Okuhara, que também eram proprietários da Rádio Santo Amaro, causaram alvoroço na comunidade nipo-brasileira. Tinham sido responsáveis pela vinda de Missora Hibari, a rainha da música japonesa. Com três apresentações no Ginásio do Ibirapuera, o público chegou a 40 mil pessoas.

Imagens do Japão era um programa de variedades que, de acordo com o slogan, visava a transmitir “informação, divertimento e cultura”. No primeiro ano, a apresentadora era Reimi Honda, que já trabalhava na Tupi, conforme escreve Harumi Yamaguchi para o livro Coronia Gueinoshi. Depois, entrou Rosa Miyake, que, ao longo de mais de duas décadas, algumas vezes, chegou a dividir a tela com outros apresentadores (como Alberto Murata, que se encarregava das locuções mais formais), mas sempre foi a titular absoluta do programa.

Em outubro de 1973, foi ao ar o programa Japan Pop Show, da Matsuda Production, de Nelson Matsuda, que trabalhara cerca de um ano na Okuhara Production. Começou na TV Bandeirantes, aos domingos, 6 da manhã, durante 40 minutos, também com uma programação variada. A apresentação estava a cargo do casal Matsuda – Nelson e Suzana.

A exemplo dos programas radiofônicos, os da TV também mantiveram estreita ligação com a música popular japonesa. São memoráveis os concursos de karaokê (no melhor estilo dos programas de calouros, com jurados e platéia), com etapas e etapas a serem vencidas na disputa de valiosos prêmios (carro zero-quilômetro ou viagem ao Japão).

Também não podem ser esquecidos os concursos de miss (Miss Colônia e Miss Nikkey). Na passarela, rivalizando com a “beleza da mulher nipo-brasileira”, jargão repetido em todos os momentos, as próprias apresentadoras.

Rosa Miyake, que desde pequena participava com os irmãos dos nodojiman (concurso de cantores), na década de 60 foi convidada a se profissionalizar pelos empresários da Rádio Santo Amaro. Gravou pela Chantecler, freqüentou os corredores da TV Record nos tempos da Jovem Guarda e protagonizou, ao lado de Luiz Gustavo, a novela Yoshiko, um poema de amor, de Lilian Lambertini. Foi ao Japão graças ao inesquecível comercial para a Varig, em que ela canta a saudade do personagem de contos infantis Urashima Tarô pela terra natal. Lá, gravou o LP (long-play) Rosa Miyake em Tokyo. Apresentou-se em vários programas, recebeu convite para permanecer dois anos no Japão, mas seu empresário, Mário Okuhara, vetou. Retornou e, tempos depois, em 1970, tornava-se senhora Okuhara.

Concorrência

Suzana (Okamura), formada em música (piano), deixou o curso de jornalismo para casar-se com Nelson Matsuda, em 1978. Na década de 60, apresentava-se com As Feiticeiras, conjunto em que cantava, dançava e tocava guitarra. Participava também de programas de TV, bailinhos e carnavais. Numa dessas ocasiões, em 1974, conheceu Nelson, que buscava uma parceira para a apresentar o programa.

Concorrentes na programação dominical das TVs (ambos passaram por várias emissoras), tanto o Imagens como o Japan Pop Show traziam atrações buscando identificação com os nikkeis e público em geral, simpáticos à cultura japonesa.

Japan Pop Show, através de sua equipe de produção, não ficava somente nos programas de TV – promovia shows (trouxe vários cantores famosos do Japão, com Itsuki Hiroshi), bailes e carnaval, muitas vezes, em parceria com entidades nipo-brasileiras. Já a produção do Imagens era mais discreta – trouxe cantores como Tabata Yoshio, Yashiro Aki, Kobayashi Sachiko e Aoi Mina, mas tinha como principal força os contatos no Japão, de onde importava programas (inclusive de cantores) da NHK, TV Asahi, entre outras.

Sem dúvida, nesse setor, o grande feito foi da Okuhara Production: em 31 de dezembro de 1975, via satélite, ela exibiu, ao vivo, o Kohaku Utagassen (famoso programa de final de ano da NHK). Até então, no Brasil, essas imagens eram apresentadas após dois ou três meses. Em parceria com a associação dos lojistas do Bairro da Liberdade, televisores foram colocados na Praça de Liberdade para que todos pudessem acompanhar a disputa entre os cantores.

Com a globalização, as mídias étnicas locais foram perdendo espaço. Ambos os programas saíram do ar no final da década de 90. Sinal dos tempos, foi exatamente nessa época que, com os canais por assinatura, o público teve acesso direto aos programas do exterior, incluindo os do Japão.


NOTA DA REDAÇÃO
As fontes para os textos são: Cronologia da Imigração Japonesa no Brasil, Centro de Estudos Nipo-Brasileiros, 1996, tradução de Katsunori Wakisaka e Coronia Gueinoshi, vários autores, edição da Comissão de Publicação do Coronia Gueinoshi, 1986, São Paulo. Fotos do livro Coronia Gueinoshi.
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