
Um pé de café, ilustração do artista
plástico Tomoo Handa, como capa do 6º volume do Curso
Elementar (Nihongo 6) |
(Fotos: Museu
Histórico da Imigração Japonesa)
Até
a Segunda Guerra, o ensino da Língua Japonesa era uma das prioridades
entre os imigrantes, já que a maioria desejava retornar ao Japão.
Terminado o conflito, seguiu-se um cenário de profundas mudanças
e, hoje, o seu ensino transpôs os limites do mundo nikkei para a
lista de línguas estrangeiras.
De férias,
Shiguemi que estuda numa faculdade do interior está
na capital para freqüentar o curso intensivo de Língua Japonesa
numa universidade. Sua avaliação não é das
melhores: A professora pode saber muito de japonês, mas não
sabe gramática portuguesa e aí fica difícil entender
as aulas.
Essa declaração,
à geração dos nossos avós e bisavós,
poderá soar como um acinte ao passado (O que japonês
tem a ver com o português?) ou se transformar em reflexão
sobre a dimensão exata das mudanças pós-guerra.
O ensino da
Língua Japonesa, uma constante preocupação dos imigrantes
japoneses, foi proibido com o advento da Segunda Guerra. Em 1938, o jornal
Notícias do Brasil, edição de 21 de outubro, indicava
o funcionamento de 476 escolas primárias japonesas, 554 professores
(468 homens e 86 mulheres), dos quais 276 devidamente diplomados no Brasil.
Em dezembro do mesmo ano, as escolas dos súditos do Eixo (japonesas,
italianas e alemãs) foram fechadas.
Terminada a
Guerra, surgem novos ares entre os nipo-brasileiros. A cisão entre
kachigumi (vitoriosos) e makegumi (derrotistas) refletiu-se na reorganização
das escolas, principalmente, na atuação dos conservadores
e ferrenhos pela preservação da cultura japonesa.

Na página 31, ilustração do artista plástico
Tomoo Handa sobre as frentes de colonização dos imigrantes
japoneses no Brasil |

Na página 17 do 7º volume do Curso Elementar (Nihongo
7), lições sobre a capital federal, Brasília |
Calcula-se
que foram necessários cerca de dez anos para o apaziguamento
entre os professores e os administradores dessas escolas, e um sinal de
conciliação aconteceu em julho de 1954. Nesse dia, cerca
de cem pessoas compareceram na primeira reunião que resultou na
Federação das Escolas de Língua Japonesa do Estado
de São Paulo. Registrada no ano seguinte, ela estendeu sua abrangência
em nível nacional. Em setembro de 1988, ela foi incorporada ao
Centro de Estudos da Língua Japonesa, entidade constituída
em fevereiro do mesmo ano.
Nacionalização
dos livros didáticos
É importante
ressaltar que, em meados da década de 50, surgiu uma corrente que
defendia a nacionalização dos livros didáticos
que deveriam ter como referência o próprio país,
não o Japão. Nem todos concordavam com essa idéia,
mas o fato é que, em 1959, a Aliança Cultural Brasil-Japão,
sob a presidência de Kiyoshi Yamamoto, criou uma comissão
para elaboração de livros didáticos. Em abril de
1961 foi concluída a edição de oito volumes do curso
elementar (devidamente registrados em 1963 na Secretaria de Educação
do Estado de São Paulo) e, em julho de 1964 foram editados os quatro
volumes do curso avançado.
No início
da década de 60, um levantamento da Federação registrava
o funcionamento de cerca de 600 estabelecimentos para o ensino do japonês.
Em 1977, o Centro de Difusão de Língua Japonesa mostrava
a redução para 224 escolas.
No final da
década de 80, em contraste com essa situação, o japonês
foi incluído como língua estrangeira nos Centros de Estudos
de Línguas da rede estadual de ensino do Paraná e de São
Paulo, juntamente com outros idiomas. Nessa ocasião, também,
muitas escolas privadas de nível fundamental e médio começaram
a incluir o japonês como opção de língua estrangeira.
Por conta disso,
surgiu outra questão: aumentou a demanda de professores, mas o
único curso de licenciatura em Letras-Japonês era oferecido
pela USP. Diante disso, em 1985, foi ministrado o 1º Curso de Formação
de Professores de Língua Japonesa, pelo Centro de Estudos de Língua
Japonesa da Fundação Japão. Ao longo da década
de 90, no ensino superior, aumentou o número de instituições
a oferecer o japonês como extensão universitária ou
como matéria optativa.
Em contrapartida,
de acordo com pesquisa da Fundação Japão, o número
de aprendizes vem diminuindo ao longo das últimas décadas.
Em 1993, foram registrados 18.372 estudantes de Língua Japonesa
(incluindo 642 alunos da rede pública) e, em 1998, esse total baixou
para 16.678 alunos (incluindo 3.084 das escolas públicas).
Se nas décadas
70 e 80 a opção pelo japonês tinha como estímulo
o aspecto profissional (o grande número de empresas japonesas),
nos últimos anos, o mangá e o animê são os
principais motivadores. Às escolas e professores, há um
grande desafio: como obter eficiência no ensino do japonês
que, de língua materna, virou língua estrangeira?
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