
HISTÓRIA
- Reportagem da época insinua medo e mistério sobre
as organizações secretas |
(Fotos: Museu
Histórico da Imigração Japonesa no Brasil)
Envolvidos
na onda de boatos sobre a vitória do Japão após
o fim da Segunda Guerra, muitos imigrantes japoneses tornaram-se vítimas
dos aproveitadores da situação. Como aves de rapina à
espreita do primeiro sinal de fraqueza de suas presas, os aproveitadores
da situação criada pelas informações desencontradas
quanto à situação do Japão ao término
da Segunda Guerra Mundial fizeram muitas vítimas entre os imigrantes
japoneses.
Acreditando
na vitória do Japão, não foram poucos os imigrantes
que diziam ter chegado o momento de retornar à terra natal, ou
de reemigrar aos países dos Mares do Sul (Manchúria, China
e ilhas de Hainã) para ajudar na colonização dos
territórios ocupados pelas forças militares japonesas.
Para eles,
em breve, estariam aportando os navios para repatriá-los. Por conta
disso, muitos venderam suas propriedades a preço irrisório
para comprar ienes (tendência que se verificava desde 1939) e prepararem-se
para o retorno. Alguns chegaram a comprar propriedade nas
ilhas ocupadas pelas tropas japonesas. Um triplo engodo além
de perder dinheiro na venda, adquiriram ienes que já não
tinham mais valor de mercado (desvalorizada, durante a guerra o governo
fizera nova emissão da moeda japonesa) e os tais navios nunca chegaram
aos portos brasileiros.
Não
existem documentos registrando especificamente essas ocorrências,
são histórias contadas por imigrantes que viveram aqueles
tempos pós-guerra e, uma coisa é compreensível
quem experimentou a humilhação de perder sua poupança
para esses aproveitadores quis esconder ou esquecer definitivamente esses
fatos. Esses mesmos contadores lamentam que, algumas dessas vítimas
preferiram o suicídio a ter de enfrentar a ira (ou desespero) da
família. E garantem que muitos negociantes de ienes ficaram ricos
explorando a boa-fé dos imigrantes desinformados.

PASSADO
- Repórter examina faca usada em assassinato. Ao lado, criminosos
no cartório |
Não
se pode falar que o conflito entre os vitoristas e os derrotistas esteja
intimamente ligado aos negócios dos ienes, mas pode-se
deduzir que interessava a muitos aproveitadores que os imigrantes continuassem
acreditando na vitória, para garantir o bom andamento
de suas atividades fraudulentas.
O caso do
príncipe falso
Takuji Kato,
conhecido como príncipe falso, numa de suas viagens
ao Japão, comprou no mercado negro a medalha Kinshi Kunshô
(Ordem do Milhano de Ouro), instituída em 1890, que servia para
condecorar heróis de guerra. Com a derrota, ela fora abolida e,
conseqüentemente, desvalorizada. No Brasil, Kato ganhou bom dinheiro
vendendo-a aos vitoristas.
Ao retornar
de outra viagem ao Japão, Kato adquiriu um terreno no bairro de
Cipó, subúrbio de São Paulo, onde montou uma fazenda
coletiva destinada a cultuar o espírito japonês enquanto
se esperava pela chegada do navio de repatriamento. Acreditando nessa
promessa, muitos colonos venderam suas terras e ingressaram nesse local.
Nessa mesma
época, Sanzo Kawasaki dizia-se capitão do serviço
secreto japonês e comunicava a chegada de uma nobre personalidade
trazendo uma mensagem de conforto e consolo aos japoneses residentes no
Brasil. Assim, pedia ajuda para a subsistência desse nobre que,
por motivos não revelados, deveria permanecer oculto. Com essa
história, conseguiu arrecadar vultosas quantias junto aos núcleos
de vitoristas.
Ao se conhecerem,
Kato se transformou no falso príncipe Asaka e Kawasaki
em seu agente. Exploravam os japoneses, tanto na fazenda como fora dela.
Ambos foram presos em 1954.
O fato é
que, mesmo antes disso, o conflito entre os kachigumi e makegumi (vitoristas
e derrotistas), as atitudes intransigentes dos japoneses radicais, as
acusações de formação de sociedades secretas
acabaram por provocar reações negativas na opinião
pública, fazendo crescer o sentimento antinipônico.
Na Assembléia
Constituinte de 1946, os deputados Miguel Couto e José Augusto
apresentaram uma emenda proibindo a entrada de novos imigrantes japoneses.
Na sessão noturna de 27 de agosto de 1946, depois do acalorado
debate entre os parlamentares, a votação acabou empatada
99 deputados contra a proibição, 99 a favor. Ao final,
a emenda foi rejeitada, graças ao voto de minerva de Mello Vianna,
presidente da Constituinte.
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