
VERDADE
- Derrota tornou-se fato quando a comunicação com
o Japão foi restabelecida |
(Fotos: Museu
Histórico da Imigração Japonesa no Brasil)
O sentimento
de incredulidade sobre a derrota do Japão, misturado às
ondas de boatos sobre a falsidade da rendição das forças
imperiais japonesas, criou um campo minado naqueles anos pós-guerra.
No dia 3 de outubro de 1945, oficialmente, chegava às mãos
de Chibata Miyakoshi, antigo diretor da filial da Kaiko (Companhia de
Fomento Industrial no Ultramar), o Edito Imperial sobre o término
da guerra e a mensagem de Shigenori Togo, ministro das Relações
Exteriores, ambos voltados aos compatriotas do exterior. Assim, Miyakoshi
e outros líderes da Comissão de Estudos de Medidas para
Enfrentar a Conjuntura (reunidos na sede da Cooperativa Agrícola
de Cotia e da qual compareceram cerca de 300 pessoas vindas do interior)
decidiram distribuir cópias desses documentos nas principais concentrações
de japoneses e efetivar um movimento esclarecedor sobre a derrota nipônica.
Essas medidas,
ao contrário do esperado, pareciam provocar a ira daqueles que
acreditavam na vitória do Japão. Outras estratégias
de esclarecimentos foram propostas, uma delas era esperar o tempo passar,
mas esse tempo parecia conspirar: no dia 1º de janeiro de 1946, chegou
um novo comunicado do imperador, desta vez para declarar a sua condição
humana.
Em
1946, Ikuta Mizobe foi assassinado, vítima dos kachigumi |
Para as lideranças
vitoristas, tinha chegado o momento de adotar medidas severas para punir
esses traidores da pátria eles acreditavam que,
com esse edito, eles passavam a atentar contra a honra do imperador.
No dia 7 de
março de 1946, Ikuta Mizobe, diretor-gerente da Cooperativa Agrícola
de Bastos, foi assassinado. No dia 1º de abril, Chuzaburo Nomura,
antigo redator-chefe do jornal Nippak Shimbun e ex-secretário-geral
da Sociedade de Difusão de Ensino dos Japoneses do Brasil, encontrou
o mesmo trágico destino. Nesse mesmo dia, Shigetsuna Furuya, dono
de uma fazenda de banana em Cedro, município de Juquiá,
e ministro plenipotenciário na Argentina, foi ferido num desses
atentados.
Enfim, o conflito
entre kachigumi (vitoristas) e makegumi (derrotistas) transformou-se em
caso de polícia e passou a ser acompanhado pelas manchetes sensacionalistas
dos jornais policiais. De março de 1946 a janeiro de 1947, foram
86 feridos e 23 mortos (desses, a maioria era dos esclarecidos
ou derrotistas e vítima de atos praticados por grupos
radicais pertencentes à Shindo Renmei).
Para alguns,
aqueles primeiros anos pós-guerra vividos pela comunidade nipo-brasileira
estão relacionados somente aos casos policiais envolvendo os atos
terroristas e a constante ameaça à segurança pessoal.
No entanto, para outros, esse período revela um processo de profundas
(e difíceis) mudanças na história da imigração
japonesa no Brasil.
Sentimentos
misturam-se num turbilhão de maneira extremada: de um lado, um
grupo de radicais acreditando defender a honra do império
japonês; de outro, um grupo mais amplo, ainda em estado de choque,
sem conseguir convencer-se que o acalentado sonho de retorno à
terra natal se tornara impossível com a derrota. Para a maioria
deles, residentes nas zonas rurais, distantes dos últimos acontecimentos,
era difícil acreditar na derrota do Japão, seu coração
estava mais aberto às notícias favoráveis.
Mas, após
esse primeiro momento de desencontro de informações, pouco
a pouco, a comunidade foi se convencendo da verdade sobre o final da guerra.
Com a restauração das comunicações com o Japão,
muitos puderam saber da tragédia e das dificuldades vividas por
seus conterrâneos e familiares. Solidários, participaram
da campanha de arrecadação para socorro às vítimas
da guerra, enviando mantimentos, roupas e remédios aos seus familiares
no Japão.
Pode-se dizer
que, aos poucos, a vida foi voltando à normalidade, mas a explosão
de sentimento jamais foi esquecida e, em muitos casos, as mágoas
jamais externadas. Muitos que viveram aqueles momentos intensos do pós-guerra
preferiram se calar e jamais revelar detalhes do acontecido. O fato é
que, durante longos anos, persistiu uma divisão imperceptível
entre aqueles makegumi e kachigumi. Todos tinham reconhecido que
a derrota do Japão era um fato, mas parecia que os makegumi tinham
prazer de ficar batendo sempre na mesma tecla. Por isso, não gosto
desse pessoal, justificou, recentemente, um dos vitoristas. Mesmo
hoje, os nossos pensamentos não se encaixam. Alguns são
muito ignorantes, outros retrógrados, conservadores ou extremamente
nacionalistas, rebateu um makegumi.
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