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Uma época para ser apagada da memória
O fim da guerra marcou o início dos conflitos no seio da própria comunidade japonesa, que ficará marcada por uma profunda cisão

COMUNICAÇÃO - Notícias sobre a rendição do Japão soaram como estratégia para abater os imigrantes

(Fotos: Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil)

No dia 15 de agosto de 1945, todos os jornais estamparam a notícia da rendição do Japão. Para muitos da comunidade japonesa radicada no Brasil, como define Tomoo Handa, isso “atingiu como se fosse um raio”. Nesse dia, começou a circular a boataria de que “a rendição era notícia falsificada. Na verdade: a grande vitória do Japão”.

Desde 1942, os jornais de língua estrangeira foram proibidos e, portanto, os japoneses foram destituídos dos meios de comunicação que consideravam “confiáveis”, principalmente para aqueles que vivam no interior, na zona rural. Possuir rádio em casa também era ilegal, assim como as atividades associativas.

Estava criado, portanto, um terreno fértil para o surgimento dos boatos – o diz-que-diz que foi tomando proporções imprevisíveis à medida que circulava entre os interessados. Por exemplo, em 1943, quando os japoneses foram obrigados a deixar a orla marítima (após afundamento de cinco cargueiros brasileiros e americanos), comentou-se que o fato teria sido instrução vinda do governo japonês, que preparava o desembarque de suas forças.

Outro comentário de grande repercussão, surgido por volta de 1943, foi de que a menta e o casulo de bicho-da-seda eram exportados para os Estados Unidos e utilizados como material bélico – a menta como matéria-prima para as armas e refrigeração de motores; e a seda, na confecção de pára-quedas. Portanto, os japoneses que se dedicavam a esses produtos exerciam atividades antipatrióticas.

No ano seguinte, começaram a ser registrados casos de destruições e de incêndio de instalações de beneficiamento de menta e barracões de criação de bicho-da-seda. Esses atentados teriam sido cometidos por integrantes de organizações secretas Tenchugumi (Grupo de Castigo Divino) e Seinen Aikoku Undô (Movimento Patriótico dos Jovens). Tomoo Handa ressalta que essas são as primeiras manifestações de um conflito mais grave que eclodiria no ano seguinte, com o final da guerra.

As notícias da rendição do Japão, no dia 14 de agosto, e da destruição provocada pelas bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki (armas até então desconhecidas) soaram como mais uma estratégia das forças aliadas para abater definitivamente o ânimo dos imigrantes japoneses que esperavam ansiosamente pela vitória do Japão.

As organizações dos vitoristas (acreditavam na vitória do Japão) multiplicavam-se, com destaque para aquelas ativas durante a guerra e que foram renomeadas para Shindo Renmei (Liga dos Seguidores do Caminho dos Súditos), com sede instalada no bairro do Jabaquara, em São Paulo. De acordo com a entidade, em poucos meses, conseguira a adesão de 20 mil famílias, abrangendo cerca de 100 mil patrícios.

Em setembro, circulou o boato que chegaria ao porto de Santos um navio de guerra japonês trazendo uma missão de saudação aos imigrantes japoneses e outra missão militar. Cerca de 2 mil japoneses de todas as partes do Estado chegaram a São Paulo para recepcioná-los. O fato chegou a preocupar as autoridades policiais.

No dia 3 de outubro, através da Cruz Vermelha Brasileira (sediada no Rio de Janeiro), chegaram os textos do Edito Imperial e do ministro dos Negócios Estrangeiros, Shigenori Togo, sobre o término da guerra dirigida aos patrícios no exterior. Figuras representativas da comunidade reuniram-se para dar início à campanha de esclarecimento da situação e veiculação das declarações. No entanto, as principais aglomerações de japoneses já se encontravam sob a influência dos vitoristas (kachigumi). Aqueles que faziam referências à derrota do Japão passaram a ser chamados de “derrotistas” (makegumi) e considerados como “impatriotas”, ou “traidores da pátria”. Para este tipo de pessoas, “somente a morte” foi a sentença dos mais radicais (Kesshitai – Esquadrões Suicidas e Tokkotai – Grupo Especiais de Ataque), que passaram a cometer atos de terrorismo. A cisão entre kachigumi versus makegumi estava instalada.

 
Algumas publicações e estudos sobre o tema

Este é um conflito considerado por muitos como “pouco edificante” para a história da imigração japonesa no Brasil. Quem se encarregou de quebrar esse tabu – pois muitos queriam que o tema caísse no esquecimento – foi o consagrado escritor Fernando Morais, com Corações Sujos, livro que chegou a figurar na lista dos best seller.

Obra criticada por alguns, fato é que o tema kachigumi x makegumi passou a suscitar a curiosidade de muitos. Quem quiser ler, em língua portuguesa, citamos:

- Bastos: Uma Comunidade Étnica Japonesa no Brasil, Chiyoko Mita, tese de doutoramento – Depto. de Ciências Sociais (Antropologia Social) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, 1986.

- “Período em Branco na Corrente Imigratória e os Distúrbios na Comunidade Japonesa”, de Sussumu Miyao e José Yamashiro, capítulo 4 da obra Uma Epopéia Moderna – 80 Anos da Imigração Japonesa no Brasil – vários autores, Ed. Hucitec e Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, 1992.

- Shindô-Renmei: Terrorismo e Repressão – Rogério Dezem – Coleção Inventário Deops – Arquivo do Estado/Imprensa Oficial do Estado, 2000.

- O Perigo Amarelo em Tempos de Guerra – 1939/45 – Márcia Yumi Takeuchi - Coleção Inventário Deops – Arquivo do Estado/Imprensa Oficial do Estado, 2002.

- O Processo Judicial da Shindo-Renmei. Um Fragmento da História dos Imigrantes Japoneses no Brasil – Maria Lúcia Eiko Hatanaka – dissertação de mestrado em Ciências Sociais – PUC/SP – 1993.

- “Kachigumi: Uma Desilusão Coletiva” – Y. Kumasaka e H. Saito – in Assimilação e Integração dos Japoneses no Brasil – Hiroshi Saito e Takashi Maeyama, Editora Vozes e Editora Universidade São Paulo, 1973.


NOTA DA REDAÇÃO
As fontes utilizadas foram: Uma Epopéia Moderna – 80 Anos da Imigração Japonesa no Brasil, vários autores, Ed. Hucitec e Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, SP, 1992, especialmente o capítulo 4: “Período em branco na corrente imigratória e os distúrbios na comunidade japonesa”, de Sussumu Miyao e José Yamashiro.
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