
HISTÓRIA
- Família de Azato Shoka: imigrantes tiveram grandes transformações
|

PASSADO - Família de Usaburo Yamamoto: casas simples nos
núcleos colonizadores
|
(Fotos: Fotos:
acervo do Museu Histórico da Imigração Japonesa no
Brasil)
Qual o modo
de vida dos imigrantes japoneses ao chegar nas fazendas cafeeiras e depois,
quando seguiram para as frentes de expansão agrícola? Tomoo
Handa, imigrante e artista plástico e, mais do que isso,
destacado estudioso da história da imigração japonesa
, escreveu vários artigos enfocando esse aspecto, muito
mais como observador do que como cientista, fazia questão
de ressaltar.
Ele sustenta
que, num primeiro momento, o senso estético tradicional japonês
foi deixado de lado, criando-se então um vazio, pois ainda
não tínhamos absorvido o gosto artístico brasileiro.
Nessa ausência, nasce a chamada cultura da folhinha
que, de acordo com ele, designa a maneira de viver ou o senso artístico
de certa gente que se gaba de colar folhinhas (calendários) pelas
paredes todas da sala de jantar ou de visitas de suas casas.
Quando foram
levados para as fazendas, escreve Handa, os imigrantes tiveram grandes
transformações em seu senso estético, visto
que era impossível embelezar as suas moradias, escolher vestimentas
de bom gosto ou preparar belas refeições. As manifestações
culturais estavam restritas às festas de ano-novo e de aniversário
do imperador, quando entoavam velhas canções populares ou
folclóricas sem acompanhamento de instrumentos musicais (raros,
naquela época).
Ao se tornarem
independentes como arrendatários ou formadores de café,
agrupados em colônias de sitiantes , começaram a cuidar
um pouco de suas preferências de natureza artística,
como o plantio de flores e a feitura de jardins, de maneira tímida,
pelo menos nas famílias com pessoas mais idosas. Só
muito tempo depois começaram a embelezar o interior de suas casas
ou a usar roupas que correspondessem ao seu gosto, ressalta.
Ele explica
que os cantos e as danças eram praticados na zona rural e nas cidades,
ao contrário do ikebana e da cerimônia do chá, limitados
à cidade. Já os poemas tanka e haicai tiveram grande expansão
também no meio rural. Com o impacto do novo modo de vida
brasileiro, nossa vida ficou toda desorganizada, descreve, causando
pobreza e confusão do senso artístico da vida dos
nosso patrícios, que, de acordo com Handa, resultou na expressão
cultura da folhinha. Ele ressalta que esses calendários
das paredes tendem a desaparecer quando se fica rico e se adquire
mobílias ricas. Aí, eles vão dar lugar ao retrato
ampliado do seu dono, ou o retrato em que esse aparece em companhia de
pessoas ilustres, ou ainda, se ele é importante na localidade,
cartas de agradecimentos recebidas. Handa afirma que fatos assim
não se viam na vida japonesa, pois no senso artístico de
viver japonês evita-se, na medida do possível, expor as coisas.
Em 1968, Handa
afirmava: o passado de nossas vidas, no concernente ao senso artístico,
foi a história do fracasso. Entretanto, acredito que a vida cultural
do imigrante japonês só terá sido possível
depois de passar por essa derrota. E completava, otimista: o
gosto artístico dos imigrantes atravessou uma história de
60 anos e só agora está se tornando autêntico.
|
|
Desde
o dia da chegada, teve de morar numa casa sem tatami, tirar o quimono,
jogar fora a tigela e o hashi, beber café ao invés de chá.
Ainda arcando com o epíteto de povo inassimilável, foi o
imigrante japonês obrigado a se desfazer de quase tudo do modus
vivendi japonês.
Quem
tinha vivido sobre o tatami não conseguia esquecer sua vida antiga,
pelo menos jamais se sentiu contente com o chão de terra dura ou
com a parede de barro sujo e horrível ao tato. Achou apenas que,
como imigrante e como desbravador das matas, tinha que suportar a vida
que lhe era imposta.
As casas
de pau-a-pique eram apenas moradias provisórias, não havendo
nos moradores nenhuma intenção de nelas se fixarem e, assim,
à parte de raras exceções, não costumavam
sequer cuidar de arranjar esteticamente a vida. Os imigrantes não
tomaram conhecimento da realidade, suportaram-na, simplesmente, com vistas
ao amanhã, para uma vida melhor.
Trechos do artigo de Tomoo Handa escrito em 1968.
|