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  Históra da Imigração Japonesa
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Memórias de um ator do teatro nipo-brasileiro
A aventura da família Hakkodan continua
De colônia em colônia, a aventura da família Hakkodan
Vida de imigrante e o tempo para poesias e romances
A vez das mulheres nos programas de TV
Pelo rádio, as vozes de um Japão distante
Jornais de língua japonesa, a voz dos imigrantes
E o japonês virou língua estrangeira
O cultivo de flores e os imigrantes japoneses
Os imigrantes e a criação do bicho-da-seda
As galinhas de ovos brancos
Pimenta-do-reino e chá na colonização
Imigrantes no cultivo das fibras naturais
Legumes e hortaliças emigrando junto com os japoneses
A contribuição dos japoneses na agricultura
Imigrantes nas indústrias
Japoneses no comércio desde 1906 em SP
Um novo degrau no movimento de ascensão social
Colaboração entre japoneses da mesma origem
Andanças pelo Brasil em busca de novos horizontes
Na década de 50, o reinício da imigração
Os imigrantes pós-guerra, novidade entre os nipo-brasileiros
Tentativas para apaziguar os nipo-brasileiros
Os aproveitadores da boa-fé dos imigrantes
Uma explosão de sentimentos
Uma época para ser apagada da memória
Sob a proteção da bandeira do sol nascente
O maior problema era ser de japonês
Vivendo no país do inimigo
Tempos marcados pela guerra e pela repressão aos imigrantes
Muitas mudanças para os imigrantes japoneses
O senso estético de uma vida provisória
Manutenção da saúde: uma luta desigual pela vida
Solidariedade, uma marca dos imigrantes
Ano-novo, dia de festa nas colônias japonesas
Das cinzas brotavam as associações de japoneses
Novas energias para suportar momentos de sacrifícios
Aqui, do outro lado mundo
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O senso estético de uma vida provisória
A “cultura da folhinha” como um produto resultante do impacto de um novo modo de vida entre os imigrantes japoneses

HISTÓRIA - Família de Azato Shoka: imigrantes tiveram grandes transformações

PASSADO - Família de Usaburo Yamamoto: casas simples nos núcleos colonizadores

(Fotos: Fotos: acervo do Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil)

Qual o modo de vida dos imigrantes japoneses ao chegar nas fazendas cafeeiras e depois, quando seguiram para as frentes de expansão agrícola? Tomoo Handa, imigrante e artista plástico – e, mais do que isso, destacado estudioso da história da imigração japonesa –, escreveu vários artigos enfocando esse aspecto, “muito mais como observador do que como cientista”, fazia questão de ressaltar.

Ele sustenta que, num primeiro momento, o senso estético tradicional japonês foi deixado de lado, criando-se então um vazio, pois “ainda não tínhamos absorvido o gosto artístico brasileiro”. Nessa “ausência”, nasce a chamada “cultura da folhinha” que, de acordo com ele, designa a maneira de viver ou o senso artístico de certa gente que se gaba de colar folhinhas (calendários) pelas paredes todas da sala de jantar ou de visitas de suas casas.

Quando foram levados para as fazendas, escreve Handa, os imigrantes tiveram “grandes transformações” em seu senso estético, visto que “era impossível embelezar as suas moradias, escolher vestimentas de bom gosto ou preparar belas refeições”. As manifestações culturais estavam restritas às festas de ano-novo e de aniversário do imperador, quando entoavam velhas canções populares ou folclóricas sem acompanhamento de instrumentos musicais (raros, naquela época).

Ao se tornarem independentes – como arrendatários ou formadores de café, agrupados em colônias de sitiantes –, começaram a cuidar um pouco de suas preferências de “natureza artística”, como o plantio de flores e a feitura de jardins, de maneira tímida, pelo menos nas famílias com pessoas mais idosas. “Só muito tempo depois começaram a embelezar o interior de suas casas ou a usar roupas que correspondessem ao seu gosto”, ressalta.

Ele explica que os cantos e as danças eram praticados na zona rural e nas cidades, ao contrário do ikebana e da cerimônia do chá, limitados à cidade. Já os poemas tanka e haicai tiveram grande expansão também no meio rural. “Com o impacto do novo modo de vida brasileiro, nossa vida ficou toda desorganizada”, descreve, causando “pobreza e confusão do senso artístico da vida dos nosso patrícios”, que, de acordo com Handa, resultou na expressão “cultura da folhinha”. Ele ressalta que esses calendários das paredes tendem a desaparecer “quando se fica rico e se adquire mobílias ricas”. Aí, eles vão dar lugar ao “retrato ampliado do seu dono, ou o retrato em que esse aparece em companhia de pessoas ilustres, ou ainda, se ele é importante na localidade, cartas de agradecimentos recebidas”. Handa afirma que fatos assim não se viam na vida japonesa, pois no senso artístico de viver japonês evita-se, na medida do possível, expor as coisas.

Em 1968, Handa afirmava: “o passado de nossas vidas, no concernente ao senso artístico, foi a história do fracasso. Entretanto, acredito que a vida cultural do imigrante japonês só terá sido possível depois de passar por essa derrota”. E completava, otimista: “o gosto artístico dos imigrantes atravessou uma história de 60 anos e só agora está se tornando autêntico”.

 
“Tinha que suportar a vida que lhe era imposta”

“Desde o dia da chegada, teve de morar numa casa sem tatami, tirar o quimono, jogar fora a tigela e o hashi, beber café ao invés de chá. Ainda arcando com o epíteto de povo inassimilável, foi o imigrante japonês obrigado a se desfazer de quase tudo do modus vivendi japonês”.

“Quem tinha vivido sobre o tatami não conseguia esquecer sua vida antiga, pelo menos jamais se sentiu contente com o chão de terra dura ou com a parede de barro sujo e horrível ao tato. Achou apenas que, como imigrante e como desbravador das matas, tinha que suportar a vida que lhe era imposta”.

“As casas de pau-a-pique eram apenas moradias provisórias, não havendo nos moradores nenhuma intenção de nelas se fixarem e, assim, à parte de raras exceções, não costumavam sequer cuidar de arranjar esteticamente a vida. Os imigrantes não tomaram conhecimento da realidade, suportaram-na, simplesmente, com vistas ao amanhã, para uma vida melhor.”

Trechos do artigo de Tomoo Handa escrito em 1968.


NOTA DA REDAÇÃO
As fontes utilizadas foram: “O Senso Estético na Vida dos Imigrantes Japoneses”, de autoria de Tomoo Handa, publicado no livro O Japonês em São Paulo e no Brasil (relatório do Simpósio realizado em 1968), editado pelo Centro de Estudos Nipo-Brasileiros, São Paulo, 1971.
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