
PASSADO
- Malária matou cerca de 80 pessoas na Colônia Hirano,
na Noroeste
|

APOIO - Donjinkai buscou estruturar serviços de distribuição
de soros
|
(Fotos: Fotos:
acervo do Museu Histórico da Imigração Japonesa no
Brasil)
Em algumas fazendas de café, muitos colonos chegaram a acreditar
que os imigrantes japoneses não temiam a malária. Isso porque
muitos deles aproveitavam as folgas para se embrenhar nas baixadas, perto
das regiões úmidas, para cultivar arroz, o seu alimento
predileto. Engano dos brasileiros eles, habitantes da região
temperada, simplesmente desconheciam o perigo escondido nesses locais.
Não
foi somente a malária a principal inimiga. Os problemas já
começavam no navio. Com as viagens demorando cerca de dois meses,
e as acomodações pouco adequadas, registraram-se surtos
de moléstias contagiosas como ocorreu a bordo do Wakasa-Maru, em
1918, que transportava 1.800 passageiros a encefalite provocou
a morte de 53 pessoas. Os passageiros do Hawaii-Maru, em 1929, enfrentaram
um surto de cólera que levou à morte 17 dos 52 contagiados.
Com o passar
dos anos, as condições dos navios (na maioria, velhos cargueiros)
foram melhoradas, mas sempre as autoridades sanitárias estiveram
atentas para a prevenção desses e de outros surtos de doenças
contagiosas, como o tracoma.
Nas fazendas
de café, em geral localizadas em regiões já desbravadas,
escreve Hiroshi Saito no livro O japonês no Brasil, os imigrantes
dispunham do atendimento da saúde pública ou dos médicos
contratados pelos proprietários (cujas despesas eram descontadas
do salário do doente!). No entanto, quando os imigrantes
seguiram para as zonas pioneiras, além da inacessibilidade ao atendimento
médico, as condições de vida eram bastante precárias,
continua Saito, agravado ainda pelas mudanças do regime alimentar
e pelas condições de trabalho.
O caso mais
conhecido ocorreu em 1915, na região de Cafelândia (estação
da linha Noroeste), em que 80 famílias vindas da zona Mogiana fundaram
a colônia Hirano. Logo no primeiro ano, a malária atacou
praticamente todas as famílias e, no período de alguns meses,
faleceram cerca de 80 pessoas. Essa tragédia está contada
no romance A mata das ilusões (Mori no Yume), de Massao Daigo,
publicado pela Aliança Cultural Brasil-Japão, 1997. A história
da colônia Tomé-Açu, no Estado do Pará, cuja
história é contada por Fusako Tsunoda no livro Canção
da Amazônia (.....), também é marcada pela luta sem
trégua contra a malária.
É possível
montar uma longa lista com as doenças de maior incidência
entre os imigrantes japoneses mostrando que a fase de adaptação
foi uma luta desigual pela vida. As doenças da alma
como diziam os antigos, também deprimiu aqueles homens e mulheres
nas frentes pioneiras. Em muitos, as doenças mentais, na maioria
das vezes provocadas pelo choque cultural, demandaram internações
em manicômios. Em outros, o alcoolismo levou-os aos hospitais para
tratamento da cirrose. Outros, desesperados, recorreram a outros tipos
de suicídio.
Enfim, devido
às péssimas condições de saúde, em
1924, o governo japonês passou a subsidiar os serviços de
assistência médico-sanitária, criando a Sociedade
Japonesa de Beneficência no Brasil (Zai Burajiru Nihonjin Dojinkai),
que em 1929 foi reconhecida como fundação pelo governo brasileiro.
O Dojinkai
buscou estruturar, com o apoio das associações de imigrantes
japoneses locais, os serviços de distribuição de
soros antiofídicos, pesquisas sobre ocorrência de tracoma
e campanha para sua erradicação; campanha de erradicação
da malária e ancilostomose duodenal, distribuição
de medicamentos a preço de custo, formação de auxiliares
do serviço médico, entre outros.
Também
montou postos nas cidades de Santos, Lins, Bauru, Presidente Prudente
com atendimento de médicos japoneses e que também visitavam
as colônias para diagnóstico e tratamento. Em Campos do Jordão,
em 1931, fundou o Sanatório São Francisco Xavier para atender
ao grande número de vítimas de tuberculose pulmonar. Nesse
mesmo ano apesar dos protestos de alguns líderes das regiões
de maior concentração de japoneses que desejavam sediar
a iniciativa -, em São Paulo, foi criada uma comissão de
construção do Hospital Japonês (inaugurado em 1939).
|