
PREPARATIVOS
- O final de ano era a única época em que as mulheres
deixavam a roça para prepararem as casas para a chegada do
novo ano
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BEBIDA
- Os homens brindavam o ano-novo com muita pinga
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(Fotos: Museu
Histórico da Imigração Japonesa no Brasil)
Se os imigrantes
japoneses dispensavam o descanso nos feriados cristãos (no Natal,
por exemplo), algumas datas eram respeitadas e festejadas
por toda a coletividade n ipônica. Entre elas, o aniversário
do imperador e a chegada do novo ano.
Satie Abe Oi,
74 anos, relembra, saudosa, os tempos de infância vivida numa colônia
próxima à cidade de Piratininga (vizinha a Bauru). O
final de ano era a única época em que a minha mãe
deixava de acompanhar os homens na roça. Ela passava alguns dias
fazendo uma limpeza total em casa. Jogava fora as coisas velhas, lavava,
limpava tudo. Eu não gostava muito, porque sempre sobrava alguma
coisa para fazer, conta. No entanto, tinha a compensação.
A gente sabia que era época de comer coisas gostosas. Com a ajuda
de meus irmãos mais velhos, ela fazia moti, manju, assado, tofu,
bolo, soba, coisas que a gente comia somente no ano-novo.
Comparando
com os dias atuais, parece que, naquela época, essas comidas eram
mais gostosas, relembra. Ela afirma que sua mãe era boa cozinheira
[fato confirmado pelos netos!], mas admite que a expectativa era provar
os pratos feitos pelas vizinhas. Quando a gente morava no sítio,
toda vez que preparava ou colhia alguma coisa diferente era costume repartir
com a vizinhança, diz, recordando que ela era encarregada
de distribuir as iguarias feitas pela mãe. E a gente fazia
isso com o máximo prazer, porque havia a retribuição
e queria saber o que, desta vez, a vizinha teria feito de gostoso.
Ano-novo, para
os imigrantes japoneses, era uma data comemorada por todos, com dignidade
e fatura, apesar de todos os problemas. Tomoo Handa conta que na época
pioneira, morando nas fazendas de café, no tempo em que não
havia saquê e arroz glutinoso para preparar o moti, os imigrantes
japoneses faziam as adaptações. No primeiro dia, tomava-se
o tosso e o ozouni, afirma. O tosso era feito com pinga diluída
na água. Na sopa tipo ozouni, usava-se a carne de galinha (não
havia a alga konbu), com vegetais e bolinhos de farinha (no lugar do moti).
A sobremesa típica ficava por conta do manju (feito de farinha
de trigo e recheado com doce de feijão).
É tradicional
costume entre os japoneses visitar as casas dos conhecidos para saudar
o novo ano. Por conta disso, costumava-se preparar nesse dia um almoço
com a colaboração e a presença de todos. Alguns traziam
galinhas; outros, batatinhas, cebolas ou alguma coisa para preparar comidas
que fossem do agrado geral. Comprava-se pinga para os homens e pelo menos
um litro de vinho para as mulheres (que era diluído em água
e adoçado).
Handa descreve
que o salão de festas era armado no espaço compreendido
pelas casas. A comida era posta numa bacia grande, à moda brasileira.
Bebia-se pinga nas canequinhas esmaltadas usadas para o café. E,
para espantar a lembrança dos sofrimentos, recorria-se a canções
inventadas por eles mesmos.
Mais adiante,
Tomoo Handa, ao descrever o ano-novo nas colônias, conta que, nas
famílias, o brinde simbólico era feito com vinho do porto
(na época, de preço acessível), já que não
havia saquê. Na mesa, um cozido de frango à moda japonesa,
refogado de bardana, feijão cozido doce, salada de nabo com peixe,
vegetal temperado com missô, conserva de mamão, omelete e
outras iguarias. De doces, havia yokan, manju, doce de batata-doce e gelatina
vermelha.
Ainda como
festejo do novo ano, Handa observa que, nos dias 2 e 3 de janeiro, os
chefes de família reuniam-se para outra festa regada por muita
alegria e pinga. À medida que os núcleos de colonização
vão se estruturando, essas reuniões festivas passam a ser
realizadas na sede da associação local (uma tradição
que persiste ainda nos dias de hoje).
Janeiro, em
pleno verão, continua Handa: o arrozal já cresceu
e chega à altura dos joelhos. O milho já está da
altura de um adulto. O núcleo está coberto de verde. O ano-novo
no núcleo é pleno de esperanças, ao contrário
do inverno frio do Japão, com neve, onde todos circundam, encolhidos,
o aquecedor.
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