|
Da província
de Hiroshima rumo ao Brasil. saíram 9 famílias (32 homens
e 10 mulheres) em busca de sonhos e riquezas a bordo do Kassato Maru,
Dentre estas famílias, estavam meu avós maternos Fusakiti
Nishimura (23 anos) e Wai Nishimura (17 anos).
Era dia 7 de
abril de 1908, do porto de Kobe, o navio Kasato Maru parte para as terras
longínquas e aporta no porto de Santos no dia 18 de junho do mesmo
ano.
Foram encaminhados
para a Fazenda Dumont no interior de São Paulo para trabalhar nos
cafezais, eles permaneceram durante alguns meses mas a febre amarela,
a precariedade das acomodações e outras dificuldades, fizeram
com que meus avós juntamente com mais 4 casais fugissem para a
capital.
Minha avó
foi trabalhar como empregada doméstica na casa de uma família
que estava de mudança para o RJ e meu avô conseguiu um emprego
como ordenhador de vacas numa fazenda que hoje é o Parque da Aclimação.
Neste período,
aconteceu uma pequena separação do casal Nishimura, ela
acompanhou a família para o RJ e meu avô ficou em São
Paulo.
Após
um período, minha avó ficou doente e meu avô foi buscá-la
no RJ.
De volta a
São Paulo e curada, continuaram a trabalhar na fazenda de ordenha.
E durante o trajeto de volta do trabalho para casa, aproveitavam para
recolher pedaços e caixas de madeira que encontravam pelas ruas
e confeccionar brinquedos e objetos para casa para vender na feira. No
inicio eles transportavam esses objetos embrulhados num furoshiki.
Nasce o primogênito
em 05/1911, seu nome era Arnaldo Sussumu. Nesta época presumi-se
que já haviam abandonado o trabalho de ordenha para investir no
próprio negócio da família, já que a pequena
fabrica de brinquedo começava a prosperar.
Os outros filhos
começam a nascer, em 1913 nasce Maria Masako, 1915 - Pedro Yutaka,
1919 - Antonio Akeo, 1922 - Alice Haruko, 1925 - Quinha Hiroko, 1928 -
Sadao e em 1929 - Nelson Fusao.
A
fábrica prosperou, chegando a ter oito funcionários, conseguiam
até enviar dinheiro para os pais no Japão e deixar que o
primogênito se dedicasse completamente aos estudos de medicina.
Em 1934, minha
avó consultou uma cartomante e esta alertou a que retornasse ao
Japão para visitar os pais, pois se não voltasse naquele
momento, ela não reencontraria a mãe viva. Provavelmente
não foi a causa principal desta viajem de retorno, mas acredito
que a saudade e as condições financeiras ajudaram na decisão.
De posse dos
5 filhos menores: Antonio , Alice , Quinha, Sadao e Nelson este com 5
anos na época, retornaram ao Japão.
A fábrica
de brinquedos na Mooca e o restante dos irmãos ficaram aos cuidados
de Arnaldo que interrompeu os estudos para administrar a empresa.
O retorno
para as terras do sol nascente
Ao chegarem
ao Japão, o pai da minha avó estava adoentado de cama e
conseguiram encontra-lo com vida apenas uma vez. Após a morte dele,
a minha bisavó solicitou que eles permanecessem por um período
no Japão, pois estava muito idosa.
Gastaram todas
as economias que levaram pagando dividas da família e na compra
de uma casa, área de plantio de arroz e verduras, incluíam
até uma montanha onde havia muitos cogumelos (shitakes).
De posse das
terras, começaram a trabalhar na lavoura a fim de juntar economias
para voltar ao Brasil, onde haviam deixado uma parte da prole e os negócios.
Em 1936, nasce
Harumi (minha mãe) a caçula da família, na época
minha avó estava com 46 anos e sentia-se envergonhada com a gravidez
tardia.
Passaram muitas
dificuldades pois grande parte da produção de arroz era
levado pelo governo japonês. Foi um período de fome.
Meu avô
faleceu alguns meses antes do trágico dia 06 de agosto de 1945,
vitima de uma doença intestinal.
A família
no Brasil
Devido a falta
de experiência administrativa do primogênito, a fabrica de
brinquedos fechou e juntamente com os outros irmãos, saíram
da Mooca e foram para a Vila Carrão iniciando uma outra atividade,
a de consertos e confecção de rodas para carroças.
A bomba
de Hiroshima
A pequena Harumi
vivenciou a bomba de Hiroshima, devido ao fato de morar e estudar numa
região afastada do centro, não sofreu danos. Ela conta que
na época com 9 anos estava na escola, eram 8:15 h quando ouviu
a explosão, tampou os olhos e ouvidos atirando-se no chão
com os demais alunos. Na volta para casa, ainda avistava por de trás
da montanha Taketayama, o cogumelo de fumaça colorido (cinza, rosa
e branco), admirada pela beleza, mal sabia da destruição,
devastação e morte que este cogumelo de fumaça havia
feito.
Os outros irmãos
e a mãe estavam na lavoura e a casa não sofreu muitos danos,
apenas janelas e portas quebradas . A mesma sorte, não brilhou
para o irmão Sadao na época com 18anos, este estava trabalhando
no centro de Hiroshima. Vítima da radiação e ferimentos
faleceu depois de alguns meses.
A casa de minha
avó chegou a abrigar por um período 16 pessoas que perderam
totalmente suas casas (incendiadas ou que desmoronaram).
O
retorno ao Brasil
Em 1955 o
irmão mais velho Arnaldo, foi para o Japão afim de trazer
a mãe de volta e a caçula para o Brasil, minha avó
vendeu todos os bens para financiar o retorno de todos agora entre filhos,
genro, nora e netos.
Deixou novamente
para trás, dois dos filhos: Antonio Akeo que a pedidos insistentes
de uma tia, foi adotado por esta quando mais jovem e Quinha Hiroko que
precisava ficar no Japão pois constituira uma família e
pelo marido ser primogenito e sua sogra estava bem idosa teria que cuidar
desta.
Meu tio Antonio
Akeo ainda hoje lembra com saudades do café e de uma boa feijoada.
No mesmo ano
de 1955 a bordo do navio África Maru. chegaram ao porto de Santos,
Novamente a família estava unida e minha mãe Harumi com
19 anos, conhece os outros irmãos e sobrinhos brasileiros.
Nova
etapa
Apesar da dificuldade
com a língua portuguesa, minha mãe conseguiu uma colocação
aos 20 anos como locutora de rádio. A rádio Difusora dispunha
de uma programação de 1 hora, onde a fabrica de remédios
Yakamoto (de fortificantes) locava para publicidade, musicas e informação
em japonês, teve uma passagem também como locutora de programa
japonês na radio Piratininga e rádio Santo Amaro. Trabalhou
também por um período breve na redação do
Jornal Paulista. Depois, exerceu atividades ligadas ao comercio, hoje
aposentada, vive no Espírito Santo.
Minha avó
após o reestabelecimento aqui no Brasil viveu aos cuidados de minha
mãe, falecendo em 1986 deixando uma grande lição
particularmente para mim de uma pessoa de muita fibra, força e
principalmente de uma fé inabalável. Talvez devido a esta
fé, passou com firmeza todos estes períodos difíceis
aqui relatados.
|