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Enviado por: Marisa Okuhara / Abril de 2008

Hiroshima rumo ao Brasil

Da província de Hiroshima rumo ao Brasil. saíram 9 famílias (32 homens e 10 mulheres) em busca de sonhos e riquezas a bordo do Kassato Maru, Dentre estas famílias, estavam meu avós maternos Fusakiti Nishimura (23 anos) e Wai Nishimura (17 anos).

Era dia 7 de abril de 1908, do porto de Kobe, o navio Kasato Maru parte para as terras longínquas e aporta no porto de Santos no dia 18 de junho do mesmo ano.

Foram encaminhados para a Fazenda Dumont no interior de São Paulo para trabalhar nos cafezais, eles permaneceram durante alguns meses mas a febre amarela, a precariedade das acomodações e outras dificuldades, fizeram com que meus avós juntamente com mais 4 casais fugissem para a capital.

Minha avó foi trabalhar como empregada doméstica na casa de uma família que estava de mudança para o RJ e meu avô conseguiu um emprego como ordenhador de vacas numa fazenda que hoje é o Parque da Aclimação.

Neste período, aconteceu uma pequena separação do casal Nishimura, ela acompanhou a família para o RJ e meu avô ficou em São Paulo.

Após um período, minha avó ficou doente e meu avô foi buscá-la no RJ.

De volta a São Paulo e curada, continuaram a trabalhar na fazenda de ordenha. E durante o trajeto de volta do trabalho para casa, aproveitavam para recolher pedaços e caixas de madeira que encontravam pelas ruas e confeccionar brinquedos e objetos para casa para vender na feira. No inicio eles transportavam esses objetos embrulhados num furoshiki.

Nasce o primogênito em 05/1911, seu nome era Arnaldo Sussumu. Nesta época presumi-se que já haviam abandonado o trabalho de ordenha para investir no próprio negócio da família, já que a pequena fabrica de brinquedo começava a prosperar.

Os outros filhos começam a nascer, em 1913 nasce Maria Masako, 1915 - Pedro Yutaka, 1919 - Antonio Akeo, 1922 - Alice Haruko, 1925 - Quinha Hiroko, 1928 - Sadao e em 1929 - Nelson Fusao.

A fábrica prosperou, chegando a ter oito funcionários, conseguiam até enviar dinheiro para os pais no Japão e deixar que o primogênito se dedicasse completamente aos estudos de medicina.

Em 1934, minha avó consultou uma cartomante e esta alertou a que retornasse ao Japão para visitar os pais, pois se não voltasse naquele momento, ela não reencontraria a mãe viva. Provavelmente não foi a causa principal desta viajem de retorno, mas acredito que a saudade e as condições financeiras ajudaram na decisão.

De posse dos 5 filhos menores: Antonio , Alice , Quinha, Sadao e Nelson este com 5 anos na época, retornaram ao Japão.

A fábrica de brinquedos na Mooca e o restante dos irmãos ficaram aos cuidados de Arnaldo que interrompeu os estudos para administrar a empresa.

O retorno para as terras do sol nascente

Ao chegarem ao Japão, o pai da minha avó estava adoentado de cama e conseguiram encontra-lo com vida apenas uma vez. Após a morte dele, a minha bisavó solicitou que eles permanecessem por um período no Japão, pois estava muito idosa.

Gastaram todas as economias que levaram pagando dividas da família e na compra de uma casa, área de plantio de arroz e verduras, incluíam até uma montanha onde havia muitos cogumelos (shitakes).

De posse das terras, começaram a trabalhar na lavoura a fim de juntar economias para voltar ao Brasil, onde haviam deixado uma parte da prole e os negócios.

Em 1936, nasce Harumi (minha mãe) a caçula da família, na época minha avó estava com 46 anos e sentia-se envergonhada com a gravidez tardia.

Passaram muitas dificuldades pois grande parte da produção de arroz era levado pelo governo japonês. Foi um período de fome.

Meu avô faleceu alguns meses antes do trágico dia 06 de agosto de 1945, vitima de uma doença intestinal.

A família no Brasil

Devido a falta de experiência administrativa do primogênito, a fabrica de brinquedos fechou e juntamente com os outros irmãos, saíram da Mooca e foram para a Vila Carrão iniciando uma outra atividade, a de consertos e confecção de rodas para carroças.

A bomba de Hiroshima

A pequena Harumi vivenciou a bomba de Hiroshima, devido ao fato de morar e estudar numa região afastada do centro, não sofreu danos. Ela conta que na época com 9 anos estava na escola, eram 8:15 h quando ouviu a explosão, tampou os olhos e ouvidos atirando-se no chão com os demais alunos. Na volta para casa, ainda avistava por de trás da montanha Taketayama, o cogumelo de fumaça colorido (cinza, rosa e branco), admirada pela beleza, mal sabia da destruição, devastação e morte que este cogumelo de fumaça havia feito.

Os outros irmãos e a mãe estavam na lavoura e a casa não sofreu muitos danos, apenas janelas e portas quebradas . A mesma sorte, não brilhou para o irmão Sadao na época com 18anos, este estava trabalhando no centro de Hiroshima. Vítima da radiação e ferimentos faleceu depois de alguns meses.

A casa de minha avó chegou a abrigar por um período 16 pessoas que perderam totalmente suas casas (incendiadas ou que desmoronaram).

O retorno ao Brasil

Em 1955 o irmão mais velho Arnaldo, foi para o Japão afim de trazer a mãe de volta e a caçula para o Brasil, minha avó vendeu todos os bens para financiar o retorno de todos agora entre filhos, genro, nora e netos.

Deixou novamente para trás, dois dos filhos: Antonio Akeo que a pedidos insistentes de uma tia, foi adotado por esta quando mais jovem e Quinha Hiroko que precisava ficar no Japão pois constituira uma família e pelo marido ser primogenito e sua sogra estava bem idosa teria que cuidar desta.

Meu tio Antonio Akeo ainda hoje lembra com saudades do café e de uma boa feijoada.

No mesmo ano de 1955 a bordo do navio África Maru. chegaram ao porto de Santos, Novamente a família estava unida e minha mãe Harumi com 19 anos, conhece os outros irmãos e sobrinhos brasileiros.

Nova etapa

Apesar da dificuldade com a língua portuguesa, minha mãe conseguiu uma colocação aos 20 anos como locutora de rádio. A rádio Difusora dispunha de uma programação de 1 hora, onde a fabrica de remédios Yakamoto (de fortificantes) locava para publicidade, musicas e informação em japonês, teve uma passagem também como locutora de programa japonês na radio Piratininga e rádio Santo Amaro. Trabalhou também por um período breve na redação do Jornal Paulista. Depois, exerceu atividades ligadas ao comercio, hoje aposentada, vive no Espírito Santo.

Minha avó após o reestabelecimento aqui no Brasil viveu aos cuidados de minha mãe, falecendo em 1986 deixando uma grande lição particularmente para mim de uma pessoa de muita fibra, força e principalmente de uma fé inabalável. Talvez devido a esta fé, passou com firmeza todos estes períodos difíceis aqui relatados.

Enviado por: Marisa Okuhara / Abril de 2008
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