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Postado por: Celso A. Fukuhara / Fevereiro de 2007

A trajetória da minha família

PARTE I: Família Misato

Minha Mãe, Dona Yoshiko Misato nasceu na ilha de Okinawa, Nakagami Gun, local onde atualmente é parte de uma cidade chamada Okinawa-Shi. A família dela estava fazendo dekassegui em Osaka, enquanto ela vivia em Okinawa com o avô até os nove anos de idade. Ia à escola, lembra-se até hoje do nome da escola: Ukuda Shô Gakkô.
Por motivos financeiros, o avô teve que levá-la às pressas para Osaka, para junto do resto da família, pois, estava sofrendo perseguição dos cobradores de dívida. Essa dívida era na verdade, uma despesa de viagem dos tios dela que haviam imigrado para o Brasil.
A caminho de Osaka, ainda em Naha, ela acabou perdendo os documentos originais no jinrikishá que os transportava. O pai dela a registrou com nacionalidade japonesa.
O Pai dela trabalhava na fábrica de cimento Asano em Osaka.
Em Osaka, chegou a ir à escola, complementando os estudos de shôgakko (curso primário japonês) que iniciara em Okinawa.
Por causa da dívida, a família decidiu ir ao Brasil, pois, na época, havia uma promessa de enriquecimento rápido em trabalho de lavoura de café, que estava atraindo muitos japoneses a esse País.
Em 1935, a família foi a Kobe, onde embarcaram no navio SANTOS MARU (Grupo Mitsui OSK Lines) rumo ao Brasil.
Conta minha Mãe, que quando o navio zarpou, a vovó Oshi chorou muito. Ela nunca voltaria ao Japão.
Chegaram a Santos.
No porto, os esperava o Tio, Matsuo Misato. Segundo a Mãe, ela achou engraçado que o Tio estava com a pele preta, por causa do calor brasileiro.
De lá seguiram de trem para o município de Bolevi, interior de SP, perto de Bauru, onde ficaram trabalhando no sítio de uma outra família japonesa, família kawahara, cumprindo contrato de trabalho.
Ainda nesse período, segundo a Mãe, vovó Oshi chorou várias vezes, por motivos de saudade e pelas condições precárias que enfrentaram no dia a dia. Inclusive, foi difícil acostumar-se com a comida do País. Eles foram muito, muito esforçados no trabalho, e acima de tudo, muito fortes psicologicamente.
Depois, foram para Ourinhos, para se juntar aos demais integrantes da família. Lá, nasceram os outros irmãos. Por não ter um filho homem em idade de trabalhar, as filhas mais velhas, Tomiko e minha Mãe Yoshiko tiveram que pegar no pesado na roça, pois, os irmãos mais novos eram meninos ainda.
A Mãe conta que teve que espantar macacos que vinham comer as plantações, roçou mato, derrubaram árvores, passaram arado puxado por burro, plantaram, colheram, etc. Enfrentaram cobras, pegaram malária. Uma amiga da família não conseguia pronunciar o nome japonês e deu a ela um nome brasileiro que a acompanharia pelo resto da vida: Francisca.
Ela trabalhou pesado até os 21 anos de idade, quando se casou com meu Pai, Tioko Fukuhara. O casamento aconteceu no sistema MIAI japonês. Eles não se conheciam.

Um primo meu, Toshio, filho do Tio Matsuo é prefeito da cidade de Ourinhos.

Segundo a MITSUI O.S.K LINES, durante a segunda guerra mundial o governo japonês transformou o navio SANTOS MARU em submarino e ele foi destruído durante uma batalha.
Existem fotos antigas do navio original que esteve em atividade nas décadas de 20/30 no museu da história da imigração japonesa no bairro da Liberdade, São Paulo. É possível ver também que existiu uma versão reformada do navio que voltou a fazer as viagens de imigrantes até a década de 50.
Fez várias viagens transportando imigrantes japoneses inclusive para outros países sul americanos.

 
PARTE II:
O casamento do meu pai: A família Fukuhara
O Pai, Tioko Fukuhara nasceu em Cambará, Brasil, descendente de imigrantes okinawanos de Naha, mas tinha dupla nacionalidade: Trata-se de um recurso que os imigrantes adotavam na época, registrando os filhos com nacionalidade japonesa, prevenindo-se para o fato de um dia ter que retornar para o se país de origem. Era uma época incerta, II guerra mundial, essas coisas.
Tanto o Pai como a Mãe têm em comum um passado de nobreza: São descendentes de um clã de samurais nobres do Japão (o Shizoku): O clã de Minamoto Tametomo, o mais famoso samurai que o Japão conheceu. Em Okinawa, existia uma tradição de casamentos somente entre pessoas desse clã para preservar a linhagem.

Depois de se casar em Ourinhos, minha Mãe Yoshiko viajou com meu pai Tioko até Andirá, e de lá foi levada para o sítio em carroça, já tarde da noite. No sítio, havia uma barraca montada aguardando os noivos o dia inteiro. Os convidados esperavam impacientes. Os noivos, então, estavam acabados.

Nós fomos criados em meio a um forte tradicionalismo japonês, onde se mantinha fielmente, a cultura japonesa e os costumes tradicionais dos imigrantes. Em casa, aprendemos a falar japonês (costume que mantemos até hoje), e costumamos nos casar preferencialmente com pessoas descendentes.

O Pai Tioko era agricultor e tinha propriedades nos municípios de Itambaracá e Paranavaí, estado do Paraná. Em matéria de agricultura, fez de tudo: Cultivava café, algodão, amendoim, frutas, verduras, milho, feijão, gergelim, criava porcos, gado, galinhas.
Morávamos no sítio de Itambaracá, bairro de Água do Cedro, onde havia muitos sitiantes japoneses, e os irmãos mais velhos iam estudar em Bandeirantes.
Em Água do Cedro, havia uma escolinha rural municipal, onde todos nós estudamos até o 4º ano primário. Lembro-me que no primeiro dia de aula, não falava português, só japonês. Passei uma dificuldade tremenda para entender as palavras da professora, e também para me relacionar com meus coleguinhas gaijins. Lembro-me até hoje da bolsa de pano chamada de bornal, do guarda-pó, ia descalço para a escola, da merenda que a própria professora fazia; que era alternada entre mingal, sopa de fubá, canjica.
Perto dali, havia também, uma escolinha japonesa Nihongakkô que frequentávamos, mantida pelas famílias japonesas da região.
Meu avô Tiowa Fukuhara dividia suas atividades entre nosso sítio em Itambaracá e o outro, em Paranavaí.
Esta última propriedade, nós, os filhos não chegamos a conhecer: Vovô ia sozinho, contratava um grupo de peões e ficava cerca de dois meses largando brasa direto. Feito isso, voltava para casa, descansava e pegava no pesado novamente, desta vez, no nosso sítio. Nós, pessoalmente, nunca chegamos a visitar o sítio de Paranavaí, pois, ficava muito longe. Ele faleceu em 1968.
Hoje, ao recordar, ficamos admirados com a coragem do Ojiitchan.
Essas famílias japonesas que viveram em Itambaracá venderam suas propriedades no fim da década de 60 e na década de 70 e se mudaram para outras cidades.
Observando a região (Municípios de Andirá, Bandeirantes, Itambaracá), não há dúvida de que na época, eles eram os principais responsáveis pelo desenvolvimento econômico do município: Eram trabalhadores esforçados, inteligentes, produtivos, sabiam diversificar os produtos de acordo com as necessidades.
Por causa da crise econômica crescente do país, foram obrigados a vender e encerrar suas atividades. O café, principal fonte de riqueza, já não era tão lucrativo.
Os proprietários dessas terras nos dias atuais, não conseguem manter o mesmo nível de produtividade e qualidade dos antecessores japoneses. Com isso, o desenvolvimento da região praticamente parou no tempo. É fácil perceber essa situação quando se visita essas cidades. Elas pouco mudaram em 40 anos.

Mudamos para São Paulo em 1971.
Meu pai, a princípio, andou sondando a possibilidade de ser feirante, mas optou por ser comerciante no bairro de Vila Prudente.
Começamos uma nova vida em São Paulo. Os pais trabalhavam no comércio, enquanto nós os filhos, estudávamos e ajudávamos no trabalho.
Começamos a casar se formar e se tornar independentes, os pais encerraram suas atividades de comerciantes e começaram a trabalhar fora.
A partir da década de 80, em meio a forte crise econômica do país (plano Collor), desemprego crescente, começamos uma nova atividade: Saímos do país para fazer dekassegui. Era uma febre entre a colônia japonesa. Trabalhar no Japão significava uma volta pelo caminho contrário ao dos nossos avos, com a promessa de ganhar mais dinheiro do que se estivesse no Brasil.
Meu pai se tornou um diretor da Associação Okinawa de Vila Prudente em fins dos anos 80 e faleceu em 1994.

 
Postado por: Celso A. Fukuhara / Fevereiro de 2007
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