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(Reportagem:
Helder Horikawa/NB | Foto: Associação Nipo-Brasileira de
Kyoei)
Dos 781 imigrantes
japoneses que desembarcaram com o navio Kasato Maru no dia 18 de junho,
no Porto Santos, 773 seguiram, a partir do dia 27 do mesmo mês,
para as fazendas Canaã, São Martinho, Guatapará e
Dumont, na região de Ribeirão Preto, Floresta, em Itu, e
Sobrado, em São Manoel, todas no interior de São Paulo.
No total, foram 586 homens e 187 mulheres. Os demais, entre eles três
casais, ficaram em São Paulo.
A estada desses
imigrantes nas fazendas foi curta. Depois de seis meses, dos 773 japoneses,
430 deles já haviam se retirado desses locais, indo para novas
propriedades. Com essas andanças e a chegada da segunda leva de
nipônicos, em 1910, começam a surgir os primeiros sinais
para a formação dos núcleos coloniais.
Pode-se dizer
que a imigração no Brasil teve vários tipos de colonização.
Um é o planejado pelas companhias subvencionadas pelo governo brasileiro.
O segundo foi aquele formado pelos próprios imigrantes em torno
de um líder. Outro surgiu da venda de terras, chamado shokuminchi,
no qual se comercializavam lotes em matas virgens de grandes propriedades.
E havia ainda aquele em que japoneses iam adquirindo terras na mesma área.
Não
importa o modelo, muitos desses núcleos coloniais ainda resistem
ao tempo. A maioria desses grupos, claro, foi criado depois da retomada
do processo imigratório no pós-guerra. Também obviamente,
o número de colonos nesses locais não é mais o mesmo
do passado. As oportunidades de estudo e trabalho nos grandes centros
e o fenômeno dekassegui esvaziaram as colônias.
Na região
noroeste do interior paulista, um exemplo vivo da imigração
é a Comunidade Yuba, no bairro de Primeira Aliança, município
de Mirandópolis. Lá, a língua japonesa é quase
oficial, há missoshiru todos os dias e beisebol, softbol, gatebol
e sumô são os esportes preferidos. O que impera ali é
a vida comunitária.
Desde 2003,
com o falecimento do então líder Tetsuhiko Yuba, a comunidade
tornou-se uma Oscip com o título de Associação Comunidade
Yuba. Quem a preside é Luís Tsuneo Yuba, irmão de
Tetsuhiko e filho de Issamu, o criador do local. É ele quem administra
os negócios e as atividades que envolvem 60 pessoas de 23 famílias,
praticamente todas parentes.
Issamu Yuba
idealizou a fazenda comunitária ao adquirir, em 1934, 40 alqueires
de terra em Formosa, bairro de Guaraçaí. Carregava consigo,
na época, o lema Criação de uma Nova Cultura.
Chegou, inclusive, a ganhar o título de maior granja avícola
da América do Sul, com mais de 220 mil aves. Mas o sonho desmoronou
em fevereiro de 1956. A fazenda faliu. Com uma ordem de despejo, a comunidade
saiu de Formosa. Acabou indo para o bairro de Primeira Aliança,
onde está até hoje.
Issamu faleceu
em 1976. Mas a filosofia de vida e de trabalho é a mesma. Manter
a tradição, os costumes e o coletivismo acima de tudo. Aqui,
formamos uma grande família, diz Satiko Yuba. Ela, diplomada
em Pedagogia e Direito, é uma espécie de relações
públicas da comunidade.
Na comunidade,
filmes, novelas e livros da biblioteca são praticamente de origem
japonesa. A programação na TV também fica ligada
na NHK, rede estatal nipônica transmitida no Brasil. Ali, todos
falam japonês fluentemente. Até as crianças, que têm
aulas na própria comunidade. Elas ainda aprendem as artes de xilogravura,
haicai, piano, balé...
Nas noites
de segunda, quarta e sexta, quem tem pique depois de um dia árduo
de trabalho, ainda se dedica aos ensaios do Balé Yuba, reconhecido
nacionalmente por suas performances no palco. Neste ano do centenário
da imigração, o grupo tem a agenda lotada de apresentações.
E uma boa oportunidade de o paulistano conhecer parte dessa comunidade
é o show previsto para ocorrer na Semana Cultural no Anhembi.
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