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Os japoneses, maioria em Ivoti, no Rio Grande do Sul, e Celso Ramos, em Santa Catarina, mantêm a cultura e os costumes

Produtor de uva Tadao Yoshioka com a família em Ivoti: todos os filhos estão em Porto Alegre

(Reportagem: Helder Horikawa/NB | Foto: Arquivo Pessoal)

Em cem anos de presença japonesa, é difícil enumerar as colônias de imigrantes criadas no Brasil. É certo, porém, que boa parte delas surgiu após a Segunda Guerra, com a retomada da imigração. A primeira leva aportou em 18 de janeiro de 1953, em Santos, a bordo do navio holandês Tisadane. Outros grupos vieram na seqüência, no mesmo ano, a bordo do Santos Maru e do Ruys.

Dos anos 50 para cá, os imigrantes passaram a ser enviados para outras regiões do País, fugindo principalmente do eixo São Paulo–Paraná–Mato Grosso. Em muitas dessas localidades, ainda em plena atividade, são comuns as tradições serem mantidas pelos isseis, maioria em muitos casos, e o idioma japonês ser quase a “língua oficial”.

Um exemplo disso é a região gaúcha de Ivoti, a 55 km de Porto Alegre. A cidade ostenta o título de “Cidade das Flores e dos Nipo-gaúchos”. O início de tudo ocorreu no ano de 1966, quando autoridades municipais destinaram terras para 26 famílias de imigrantes japoneses, dando origem à Colônia Ivoti, produtora de kiwi, uvas de mesa, hortaliças e flores.

Os imigrantes de Ivoti eram oriundos das províncias de Hokkaido, Yamaguchi, Hiroshima, Kagoshima, Kumamoto e Quioto. Foi desta última que veio Tadao Yoshioka. Ele, que chegou em 1968 para trabalhar dois anos contratado em uma fazenda, é o atual presidente da Associação Nipo-Brasileira da Colônia de Ivoti.

Quando desembarcou em Ivoti, Yoshioka era um jovem solteiro de 20 anos. Com a ajuda de um órgão japonês, comprou suas próprias terras em 1970. Começou plantando morango, melão e repolho. Hoje, seu principal cultivo é a uva. Com seu trabalho, conseguiu educar os filhos Miyuki, Osamu, Akie e Ayumi, hoje todos residentes em Porto Alegre.

A Colônia Ivoti tem, hoje, 37 famílias, em um total de 104 pessoas, 50% delas isseis. Os mais velhos já beiram os 80 anos. “A maioria das famílias é de aposentados e de casais que vivem sozinhos”, relata Yoshioka. Das famílias em atividade, oito dedicam-se ao cultivo da uva e outras sete à floricultura.

Ivoti já teve muito mais imigrantes. Em 1975, lembra Yoshioka, eram 42 famílias. Tempos bons, de safras recordes de uva e exportação do produto principalmente à Europa. Depois, vieram os planos econômicos e a quebra de muitos deles. O próprio Yoshioka foi tentar a sorte no Japão como dekassegui. Voltou rapidamente. “Fui para trabalhar em uma fábrica de Toyota, em Aichi, logo após o Plano Collor. Fiquei quatro meses. Cheguei à conclusão: Ivoti é minha terra, meu paraíso”, declara.

Ainda no Sul do País, outro exemplo de colônia bem-sucedida é o de Celso Ramos, no município de Frei Rogério, em Santa Catarina. O documento que oficializa a sua fundação foi assinado no dia 28 de janeiro de 1963, pelo então governador Celso Ramos e o cônsul japonês Masao Fujimoto. Mas a chegada do primeiro grupo de oito famílias japonesas, com 50 pessoas, só ocorreu no dia 9 de abril de 1964.

Nascido em Nagasaki e um sobrevivente da bomba atômica de 1945, Kazumi Ogawa, 79, é um dos imigrantes daquele primeiro grupo da Colônia Celso Ramos. Vive lá até hoje, ao lado de outras 20 famílias, quase todas formadas por isseis. Ali, os principais cultivos são pêra japonesa, ameixa e cogumelo shiitake.

A exemplo de Ivoti, a língua japonesa também é predominante entre os moradores da Colônia Celso Ramos. O local torna-se ponto obrigatório de visitação quando se promove a Festa da Pêra e o Sakura Matsuri (Festival das Cerejeiras). Existe por ali também um Monumento pela Paz onde se encontra o Sino da Paz. Moldado em bronze há mais de 400 anos, ele foi enviado pela Associação Internacional da Província de Nagasaki em 1998.

O nihongako de Celso Ramos praticamente não tem alunos. Os jovens trocam o núcleo pelas atividades da cidade. Quem pode vai estudar em alguma capital do Sul, Curitiba, Florianópolis ou Porto Alegre. Ainda assim, o núcleo gaba-se de ser o celeiro de alguns dos melhores lutadores de kendô do Brasil. E quem vive por lá o faz porque gosta. “Sou japonês de nascimento e catarinense e brasileiro de coração”, diz Ogawa.

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