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Segundo apurou o Nippo-Brasil, festa mais completa
ocorreu no Peru e a mais modesta no Canadá

No Peru, Clínica Centenário Peruana foi a única obra com verba japonesa

(Texto: Cinthia Yumi/NB | Foto: Divulgação)

Com a proximidade do que deverá se a maior festividade da história da imigração japonesa no Brasil – o centenário – o Nippo-Brasil fez um levantamento de como foram as festividades em alguns outros países que já passaram por esse marco: Peru, Bolívia, Canadá e Estados Unidos. A conclusão é de que, de maneira geral, o centenário da imigração nas Américas não foi tão diferente do que deve ocorrer em território verde-amarelo.

Assim como no Brasil, nos demais países houve a formação de uma associação específica para cuidar dos festejos alusivos à data. E, como ocorre por aqui, a resistência por parte do Japão em liberar verba para grandes construções também preocupou os organizadores.

De todos os países citados, o que teve as comemorações mais modestas foi o Canadá em 1977. Por lá, houve duas grandes manifestações: uma turnê de odori que cruzou todo o país e uma exposição fotográfica sobre a história da imigração.

No Peru as comemorações, em 1999, foram mais completas. Para começar, três obras marcaram o centenário: um monumento aos imigrantes, uma ponte da amizade e a Clínica Centenário Peruana. Esta última foi a única a receber dinheiro do governo japonês, por meio do Programa de Assistência a Projetos Comunitários, no valor de cerca de ¥ 900 mil.

O Peru ainda foi palco de uma série de apresentações culturais, cerimônias religiosas e homenagens aos pioneiros. O ápice aconteceu em 30 de maio de 99, quando a festividade contou com a presença do então presidente Alberto Fujimori e da princesa Sayako.

Na Bolívia, as comemorações foram mais modestas. A principal delas reuniu 500 convidados na capital, La Paz. A princesa Sayako e o então presidente, Carlos Hugo Banzer Suárez, foram o centro das atenções da cerimônia realizada no dia 3 de junho de 1999.

Na parte de obras, houve a reforma do Centro Cultural Boliviano-Japonesa, em Riberalta, que contou com a doação de quase ¥ 6 milhões (cerca de US$ 50 mil) de empresas japonesas. No entanto, hoje, o Centro está praticamente em desuso. Na ocasião, o governo japonês também contribuiu com dinheiro para a reforma de um centro de ensino, que hoje também está em estado preocupante.

Essas experiências frustrantes podem ter contribuído para a negativa do governo japonês em ajudar na construção de obras alusivas ao centenário da imigração no Brasil. Por aqui, havia a expectativa de “levantar” um grande complexo que iria reunir em um só endereço as associações nipo-brasileiras, federações e escritórios de representações governamentais do Japão. O projeto não recebeu apoio do Japão e dividiu opiniões da própria comunidade nikkei.

Por outro lado, a programação das festividades parece estar bem organizada. O príncipe Naruhito já confirmou presença em três solenidades oficiais de junho: dia 18 em Brasília, 21 em São Paulo e 22 em Rolândia, no Paraná.

Um ponto em comum entre todas as localidades que irão festejar os cem anos da imigração é a construção de praças e reformas de ruas em homenagem aos pioneiros. Assim, muitas cidades terão uma “cara” mais nipônica depois deste ano.

 
Imigração nos Estados Unidos

Nos Estados Unidos, o ano de 1985 marcou os cem anos da imigração japonesa, embora os primeiros nipônicos tenham pisado no país em 1868, numa época em que o fluxo migratório ainda não era legalizado.

No ano de 1880, a imigração japonesa foi oficializada, mas foi somente a partir de 1885 que o fluxo ganhou força, totalizando 400 mil cidadãos japoneses até o ano de 1911.

Os destinos mais comuns eram o arquipélago do Havaí e a costa do Pacífico. No Havaí, a entrada dos japoneses transformou a região, em especial a área agrícola.

Nas lavouras havaianas, os japoneses trabalhavam juntamente com chineses, filipinos, espanhóis e portugueses. Os donos das propriedades eram europeus. Foram esses trabalhadores que formaram a Associação de Trabalhadores do Havaí, a primeira associação multiétnica do país.

A maioria étnica japonesa deixou fortes traços na cultura havaiana, em especial na religiosidade, nos esportes e no idioma. Por serem maioria, os japoneses do Havaí não sofreram discriminação racial, como aconteceu com os patrícios que se dirigiram para a costa Oeste.

No continente norte-americano, o processo migratório foi mais lento e encontrou resistência. Em 1900, eram apenas 25 mil japoneses, que formaram pequenas comunidades, uma delas na cidade de São Francisco, na Califórnia.

Pouco depois, a imigração japonesa tomou fôlego, com cerca de 100 mil imigrantes. Na virada do século, surgiram várias entidades e associações nipo-americanas. Esses recém-chegados trabalharam nas fazenda, nas minas e na construção de rodovias. Com o tempo, muitos deles montaram seu próprio empreendimento, como restaurantes e lojas tipicamente japonesas.

Antes dos tempos áureos, os japoneses tiveram de enfrentar um movimento antiestrangeiros, que levou Japão e Estados Unidos a firmarem um acordo de controle do fluxo migratório japonês aos Estados Unidos. A situação foi mais crítica no estado da Califórnia, onde os japoneses foram proibidos de comprar terras. Mas eles burlaram a lei, comprando terras no nome de americanos. Em 1920, os japoneses controlavam mais de 450 mil acres de terras na Califórnia.

O ataque japonês a Pearl Harbor, em 1941, que culminou na entrada dos Estados Unidos na 2ª Guerra Mundial, mudaria a história dos japoneses em território norte-americano. Hoje, estima-se que a comunidade nipo-americana some 1 milhão de pessoas, com representatividade nas mais variadas profissões, da política ao mundo das artes.

Fonte: Museu Nacional Norte-americano

 
Canadá festejou com odori e exposição fotográfica

Para comemorar o centenário da imigração japonesa no Canadá, em 1977, a comunidade também criou uma comissão, que foi denominada Sociedade do Centenário. Formada por representantes nipo-canadenses de várias partes do país, a comissão era dirigida por Roger Obata.

Para os nipo-canadenses, foi a oportunidade de celebrar a história de seus antepassados e reconhecer a contribuição que isseis e nisseis deram à comunidade e ao Canadá. A Sociedade realizou alguns eventos pulverizados. Os maiores foram uma turnê de odori e uma exposição fotográfica intitulada Os Japoneses no Canadá 1877–1977, que cruzou todo o país.

A turnê de odori contou com a participação de cerca de 30 sanseis dançarinos de duas cidades. Sob os cuidados da diretora Sadayo Hayashi e da coreógrafa Chiyoko Hirano, essa companhia criada para as comemorações dos cem anos da imigração, denominada Nikka Festival Dancers, foi alvo da mídia que acompanhou o grupo em toda a turnê. O grupo realizou 26 apresentações para um público de cerca de 65 mil canadenses.

A exposição fotográfica teve seu lançamento em Vancouver, por um grupo de sanseis, jovens nisseis e um grupo de novos imigrantes, que reconstituíram o histórico da imigração japonesa no Canadá. A exposição percorreu várias cidades e, em um segundo momento, foi para o Japão. Na ocasião, também foi lançado o livro Dream of Riches, com o histórico da imigração nipônica.

Hoje, a população nipo-canadense é de cerca de 66 mil pessoas, de acordo com estatísticas oficiais do governo feitas em 2001. As cidades que concentram maior número de japoneses e descendentes são Vancouver e Toronto. A estatística ainda mostra que o número de casamentos inter-raciais aumentou de 26% em 1991 para 37,5% em 2001.

O primeiro japonês a chegar no Canadá, segundo registros, foi Manzo Nagano, em 1877. Ele era um jovem marinheiro da província de Nagasaki. No Canadá, trabalhou em diferentes atividades e retornou ao seu país em duas coasiões, antes, finalmente, de se estabelecer na cidade de Victoria, onde se tornou comerciante e estabeleceu família.

As primeiras levas de japoneses chegaram ao Canadá entre os anos de 1877 e 1928. Nesse período, houve restrições ao fluxo migratório, até que, em 1940, a imigração japonesa foi interrompida.

A sociedade canadense não era muito receptiva aos imigrantes. Os japoneses não tinham direito ao voto e havia leis que impediam que os nipo-canadenses exercessem algumas atividades profissionais.

 
Peru ganhou hospital e festa para 20 mil pessoas

Em abril de 1899, um grupo de 790 japoneses imigraram ao Peru, no navio Sakura Maru, chegando ao Porto de Callao, para trabalhar na agricultura. Esses japoneses dariam início à terceira maior comunidade japonesa fora do Japão. Atrás do Brasil e dos Estados Unidos, o Peru soma cerca de 70 mil japoneses e descendentes.

Para comemorar os cem anos da imigração no Peru, a comunidade criou uma Associação Comemorativa, que, na época, era presidida por Kazuo Harina. No total, foram realizadas 135 atividades comemorativas. As festividades oficiais foram celebradas no período de 26 a 30 de maio de 99.

No primeiro dia de celebração, uma imponente cerimônia de Ação de Graças foi realizada na Catedral de Lima, reunindo políticos e representantes das diversas instituições da comunidade nipo-peruana. “O arcebispo Juan Luis Cipriano falou palavras tão emotivas, destacando a importância do povo japonês, sua disciplina, espírito de trabalho e o grande sentimento de lealdade”, relembra César Tsuneshige, ex-presidente da Associação Peruano Japonesa.

No dia 28, houve uma cerimônia budista na sede da Associação Okinawa do Peru, em homenagem aos pioneiros imigrantes no país. No mesmo dia, houve a entrega de diplomas a personalidades e instituições que ajudaram na difusão da cultura japonesa no Peru.

As cerimônias oficiais foram encerradas em 30 de maio de 1999, no Estádio La Union, local que aglomerou 20 mil pessoas da comunidade nipo-peruana, que ovacionavam o então presidente do Peru, Alberto Fujimori, e a princesa Sayako, representando a família imperial. “Uma das apresentações mais belas foi a dos cerca de 800 jovens da Soka Gakkai Internacional, com uma dança que relembrava o corte da cana, o primeiro trabalho dos pioneiros japoneses no Peru”, relembra Tsuneshige.
Ao menos três grandes obras marcaram o centenário da imigração no Peru, embora uma delas, a Clínica Centenário Peruana, só tenha iniciado suas atividades em dezembro de 2005. “A clínica demorou para abrir suas portas, porque não tínhamos os equipamentos necessários. Tivemos de buscar patrocínio, inclusive na Embaixada do Japão e no Ministério da Saúde, e acabamos inaugurando de maneira parcial”, conta Tsuneshige.

A primeira das obras, o monumento da imigração em Canete, a 135 km de Lima, foi cravada no ponto em que desembarcaram os primeiros japoneses no Peru. A segunda é a Ponte da Amizade, inaugurada no dia 29 de maio, pelo presidente Alberto Fujimori e pela princesa Sayako, na cidade de Jesús María. A obra arquitetônica construída no setor noroeste do Campo de Marte, tem os nomes dos 790 pioneiros cravados nos idiomas japonês e espanhol.

A outra grande obra foi a Clínica Centenário Peruana, cuja colocação da pedra fundamental ocorreu em 30 de maio, em cerimônia que contou com a presença de Toshiki Kaifu, presidente da Liga Parlamentar Japão-Peru, e de Kazuo Harina, presidente da Comissão Comemorativa do Centenário. A construção do prédio de 13 andares foi possível graças à ajuda de fundações, empresários nipo-peruanos, instituições, colégios, etc. O governo japonês colaborou com um montante de US$ 938 mil.

 
Centenário na Bolívia foi modesto

Na Bolívia, os japoneses chegaram em setembro de 1899, no mesmo ano em que chegaram ao Peru. O primeiro grupo era formado por 91 imigrantes. O destino era a Bacia Mapiri, na região da capital, La Paz. Esses trabalhadores enfrentaram várias adversidades enquanto se dedicavam à extração de borracha, na região da Amazônia boliviana, numa época de próspera atividade econômica.

Em 1910, a atividade foi suspensa, o que levou os trabalhadores a buscar outras alternativas na região Norte da Bolívia. Muitos deles, no entanto, resistiram à crise econômica e continuaram na cidade de Riberalta, onde, em 1915, se formou a primeira associação japonesa.

Para comemorar os cem anos da imigração na Bolívia, empresas japonesas e a Associação Japão-Bolívia, sediada em Tóquio, fizeram uma doação de ¥ 5,49 milhões para a reforma do Centro Cultural Boliviano-Japonesa em Riberalta. No entanto, hoje, a associação pioneira encontra-se praticamente em desuso, embora a cidade conte com o maior número de descendentes de japoneses no país. Desde o fim da década de 80, com o movimento dekassegui, as atividades do Centro restringem-se a serviços de informações sobre documentação aos interessados em ir trabalhar no arquipélago nipônico.

Na ocasião dos festejos, também houve a reforma do Santa Cruz Nihongo Fukyu Gakko, um centro de ensino do idioma japonês. A reforma foi possível por meio de uma doação do governo japonês. Hoje, esse centro também está em estado preocupante, já que a equipe de professores é formada por jovens voluntários que lecionam o idioma por intermédio da Jica.

As contribuições modestas por parte do governo japonês no centenário boliviano da imigração japonesa ainda incluíram a edição de um livro comemorativo, por meio da Jica, e apresentações de artistas japoneses, por meio da Fundação Japão. Houve ainda o lançamento de um livro histórico sobre a imigração na Bolívia, intitulado Vivir en Bolivia, com parte dos custos pagos pelo governo japonês. “Felizmente, conseguimos realizar todos os nossos projetos para o centenário”, diz Guillermo Nema, presidente-executivo da Federação Nacional das Associações Boliviano-Japonesas (Fenaboja).

As festividades oficiais do centenário foram realizadas em 3 de junho de 1999 em La Paz. Por lá, também se formou um grupo responsável pela organização dos festejos comemorativos, que recebeu o nome de Comitê Comemorativo do Centenário e foi presidido pelo senhor Kenji Takeda, falecido em 2001.

Entre os 500 convidados, além do então presidente da Bolívia, Carlos Hugo Banzer Suárez, estavam governadores, prefeitos e presidentes de entidades nipo-bolivianas e, representando a família imperial, a princesa Sayako. Condecorações e homenagens antecederam o lançamento do selo comemorativo do centenário.

Hoje, a comunidade nikkei na Bolívia conta com, segundo a Fenaboja, cerca de 14 mil pessoas. Deste total, apenas 800 estão na capital La Paz. “Acreditamos que, depois das festividades do centenário, os laços de amizade entre a Bolívia e o Japão aumentaram”, finaliza Nema.

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