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Imigrante no Brasil e a família no Japão
Senhores bem-sucedidos, o que Shiro Kondo, Shuhei Tsuji e Toshihiko Tarama têm em comum? São imigrantes japoneses que adotaram o Brasil como a nova pátria e deixaram parte da família no Japão

(Texto: Cinthia Yumi/NB)

Para prestar uma homenagem aos milhares de imigrantes japoneses, que exatamente nesta semana (dia 18 de junho) comemoram os 99 anos da chegada da primeira leva de 781 nipônicos no navio Kasato Maru, o NB traz a história de três personagens que podem ser considerados aqui representantes da saga dos isseis que emigraram ao Brasil, entre os anos de 1908 e 1973, por intermédio de um acordo governamental de imigração entre os dois países.

Desde o Kasato Maru, em 18 de junho de 1908, até o ano de 1941, entraram no País cerca de 189 mil imigrantes japoneses. No ano de 1941, o governo brasileiro lançou medidas nacionalizadoras por causa da Segunda Guerra. O fluxo migratório só foi retomado a partir de 1953. Era o início de uma nova era migratória, no entanto, com um fluxo bem reduzido se comparado ao do período anterior à guerra. De 1953 a 1988, cerca de 53,5 mil japoneses entraram no Brasil. E é nessa nova leva que estão os três personagens desta reportagem.

Em comum, todos têm o fato de emigrar do Japão no período pós-guerra, entre as décadas de 50 e 60, e terem vivido um dilema: separar-se de algum ente da família que optara por permanecer no Japão. O agricultor Shiro Kondo, 62, caçula de 5 irmãos, deixou três deles no Japão. O empresário Shuhei Tsuji, 65, separou-se da irmã mais velha e emigrou ao Brasil com seus pais e mais quatro irmãos. O aposentado Toshihiko Tarama, 77, chegou sozinho, há 52 anos.

Entrevistar cada um desses isseis, com trajetórias marcadas por desafios, muito trabalho e saudades do Japão, parentes e amigos, é resgatar histórias inspiradoras de cenas de novela. O que, de fato, aconteceu na produção Haru & Natsu, exibida na TV japonesa NHK, há cerca de dois anos. Mais que isso. É entender melhor a experiência de nossos avós e, com isso, aprender a respeitá-los ainda mais.

(*Colaborou Liliana Murata/NB)

 
Cena de novela
Foto: Cinthia Yumi/NB

Shuhei Tsuji, de Atibaia: “Tinha uma vida boa no Japão”

“Sabe aquela novela Haru & Natsu? Quase aconteceu com a minha família”, diz emocionado o empresário Shuhei Tsuji, 65, em seu escritório, na cidade de Atibaia, a 60 km de São Paulo. Cinquenta anos depois de ter emigrado com a família ao Brasil, o issei de Kagawa é um bem-sucedido empresário do ramo automotivo, além de presidir o Bunkyo local e ter participação efetiva na Confederação Brasileira de Beisebol e Softbol (CBBS).

Tudo começou em outubro de 1956, quando quase toda a família embarcava no navio Africa Maru para uma viagem de 46 dias. O destino: o eldorado brasileiro. O “quase toda família” justifica-se pelo fato de a irmã mais velha de Shuhei, Kazuyo, permanecer no Japão, já que ela havia se casado em dezembro de 1955. “A vontade de acompanhar minha família era grande. Mas não haveria como ir, pois o papel de uma mulher é se dedicar e ser fiel ao marido”, relembra Kazuyo, em entrevista por telefone ao NB.

Enquanto aguardavam no Centro de Imigrantes, em Kobe, a família Tsuji (mãe, pai e cinco filhos) passava por um momento dramático: o patriarca, Takeo, seria proibido de embarcar por causa de um tracoma, um tipo de conjuntivite contagiosa. “Isso abalou toda a família. Já tínhamos vendido tudo no Japão e estávamos com toda a mudança na hospedaria de Kobe”, relembra o empresário, que, na ocasião, era um adolescente de 14 anos.

Quando chegou o dia de embarcar ao Brasil, Shuhei e sua família vivenciaram a cena mais dramática de suas vidas. Viram todos os colegas embarcarem no navio, um a um, até hospedaria ficar vazia. Restou apenas a família Tsuji. “Até que, de repente, vieram nos chamar. Não sei quem deu a permissão, mas pudemos embarcar no Africa Maru, que já estava para sair, ao som do hino de despedida”, conta.

O momento foi dramático para Kazuyo e o marido Matsuda, que não puderam se despedir dos Tsuji. “Não fui informada da partida deles. Acredito, que como eles foram chamados de repente, não tiveram tempo de me informar. Sofri muito, especialmente porque fui criada num ambiente familiar muito alegre”, continua Kazuyo, que hoje é dona de casa e tem dois filhos.

As primeiras notícias vindas do Brasil só chegariam um ano depois. “Em 1957, quando tive meu primeiro filho, recebi a primeira carta da minha mãe. Ela dizia que se tivesse asas para voar, iria correndo ao encontro do neto para poder conhecê-lo”, relembra ela.

A tristeza era grande para toda família e, em especial para Shuhei, que havia relutado em mudar de país. “Quando meu pai me falou, eu disse que não iria. Tinha uma vida boa no Japão. Estudava, tinha amigos. Nem conhecia o Brasil. Fiquei resignado.”

Não teve jeito. O Brasil seria a nova morada da família. Segundo Shuhei, durante os 46 dias de viagem, seu pai, Takeo, teve os dias mais alegres da vida. “ Meu pai dizia isso porque no navio não tínhamos de trabalhar. Era só entretenimento.” Eram dias de Undokai, de novas amizades e do famoso Sekidô Matsuri, a festa realizada em todos os navios e que festejava a passagem pela linha do Equador.

 
De sol a sol nas lavouras
Foto: Jin Yonezawa/NB

O agricultor Shiro Kondo chegou ao Brasil em dezembro de 1968: “Queria ser um grande fazendeiro”

A festa celebrada em todos os navios da imigração ao Brasil também é uma das principais recordações do agricultor Shiro Kondo, 62, que embarcou no Argentina Maru, em dezembro de 1968, deixando três irmãos no Japão (Jiro, Ichiro e Michiko). Entre as cartas e fotos antigas de Kondo, um certificado chama a atenção. “Nós ganhávamos este aqui como lembrança da passagem pela linha do Equador”, conta ele.

Até o embarque no porto de Yokohama, Kondo tinha uma vida típica de um rapaz da sua idade. Ele cursava a Universidade de Direito e já formatava a idéia de “desbravar terras brasileiras”. “Eu queria ser um grande fazendeiro no Brasil”, diz com um largo sorriso.

O otimismo vinha das cartas recebidas dos pais e do irmão mais velho, Yuzo, que se estabeleceram no Brasil em 1964. Em contrapartida, o Japão da época, era, praticamente, cinzas. “Quando a guerra terminou, em 1945, não tinha comida no Japão. A terra era muito pobre. Nos alimentávamos com batatinha, aveia e arroz”, relembra.

Na mudança para o Brasil, além de roupas, livros, câmera fotográfica e alguns alimentos, a saudade dos irmãos que ficaram no Japão. Os pais e o irmão mais velho, Yuzo, foram buscá-lo no Porto de Santos. “Eu estranhei a cor da pele deles. Estavam tão queimados, parecia cor de tijolo. Depois eu também fiquei com a mesma cor”, lembra.

A família de Kondo estabeleceu-se em Guatapará, interior de São Paulo, em um dos núcleos de colonização agrícola da política de imigração. Assim como os pais e o irmão mais velho, Kondo também ganhou uma pele mais bronzeada na medida em que trabalhava nas plantações de arroz da família.

Depois de 5 anos morando no Brasil, Kondo se casou. A esposa era uma amiga de infância, da mesma província que ele, Kanagawa. “Meus familiares que ficaram no Japão tinham amizade com a Sayoko. Sempre tinha notícias dela e ela de nós. Até que um dia recebi uma carta dela falando do casamento. Eu concordei e ela veio ao Brasil”, relembra ele.

Sayoko chegou ao Brasil em 1973, a bordo do Nippon Maru, o último navio da imigração. Na semana seguinte, eles se casaram em uma cerimônia simples, com alguns familiares e amigos da colônia. “Reunimos umas 150 pessoas. Ela usou um vestido de noiva emprestado... Nem meus irmãos do Japão, nem os familiares dela puderam participar da festa. Ficaram sabendo por meio das cartas”, conta ele.

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