
HISTÓRIA
- Alexandra e Endo: local pode virar Centro Cultural
|
(Texto e Fotos:
Helder Horikawa/NB)
É
nosso, é nosso. Foi assim, de forma entusiasmada e aos gritos,
que o presidente da Associação Japonesa de Santos, na Baixada
Santista, Hiroshi Endo, reagiu ao receber as chaves do antigo casarão
da Rua Paraná, 129, na Vila Mathias, centro da cidade. O imóvel,
confiscado da comunidade nipo-brasileira em setembro de 1946, foi cedido
pelo Ministério do Planejamento por tempo indeterminado, por meio
da Secretaria de Patrimônio da União (SPU). A assinatura
do contrato e a entrega das chaves ocorreu no dia 9 de dezembro e foi
acompanhada pelo procurador Nacional da Fazenda, Luiz Inácio Lucena
Adams.
Agora, segundo
Endo, começa a parte mais difícil: buscar recursos para
uma reforma da casa, que deverá se transformar em um Centro Cultural
que ofereça aulas de língua japonesa, cursos como ikebana
e origami, além de abrigar um Museu Histórico da Imigração.
O objetivo é que o local seja inaugurado em 2008, nas festividades
do centenário da imigração japonesa no Brasil.
Mas, para que
isso aconteça, será preciso correr contra o tempo. O ministro
do Planejamento, Paulo Bernardo, admitira, em agosto, quando assinou o
decreto que previa a cessão do casarão, que o governo pode
até contribuir financeiramente com a reforma. A prefeitura da cidade
também pode fazer o mesmo. Estamos dispostos a ajudar no
que for preciso. Mas, antes de mais nada, é preciso analisarmos
os projetos, dimensionarmos a viabilidade técnica e seu impacto
social, disse o prefeito João Paulo Tavares Papa (PMDB).
Em tese, pelo
menos por enquanto, o que a direção da Associação
de Santos tem são só promessas. Algumas empresas, porém,
segundo Sadao Nakai, presidente do Estrela de Ouro Futebol Clube e integrante
da Comissão de Retomada do imóvel, já se mostraram
interessadas em ajudar.
Uma série
de reuniões deve ocorrer nos próximos dias para discutir
o futuro do empreendimento. Precisamos manter e ampliar a nossa
força-tarefa para o centenário. Santos não pode ficar
de fora das festividades de 2008 e queremos, inclusive, que o casal imperial
visite a cidade por onde entraram os imigrantes, disse Nakai. O
governo encaminhou, no dia 22 de agosto, uma carta-convite para que o
imperador Akihito e a imperatriz Michiko venham ao Brasil no centenário.
A cessão
do casarão não encerra a novela da Associação
Japonesa com o governo. Já há uma discussão sobre
a devolução definitiva do imóvel. A luta não
acabou. Esteja onde eu estiver, em Brasília ou não, estarei
trabalhando para que esse erro do nosso governo no passado seja corrigido.
Essa cessão demonstra o pedido de perdão a um povo que não
pode continuar sendo penalizado por atos de guerra de seis décadas
atrás, destacou a deputada federal Telma de Souza (PT).
O ministro
Paulo Bernardo e o próprio presidente Luiz Inácio Lula da
Silva demonstram interesse na devolução definitiva. Existem
entraves jurídicos para que isso ocorra agora. Estamos analisando
juridicamente como podemos proceder. Hoje, a nossa legislação
não permite que façamos doações de bens da
União, argumentou a secretária da SPU, Alexandra Rescthe.
|
|
1928
Um grupo de japoneses radicados em Santos adquire o terreno da
Rua Paraná, 129, no dia 31 de dezembro de 1928, por 22 contos de
réis.
1939
Fundada oficialmente, em 14 de junho, a Sociedade Japonesa de Santos,
tendo Fumito Myoshi como primeiro presidente.
1940
Em função da Segunda Guerra, a Sociedade Japonesa
de Santos passa a se chamar Sociedade Instrutiva Vila Mathias.
1942
Diante do Decreto Lei nº 4.166, de 11 de março, e com
o anúncio oficial da participação do Brasil na Segunda
Guerra ao lado dos aliados, em 8 de julho de 1943, foi destruído
todo o sistema da Sociedade Instrutiva Vila Mathias, obrigando japoneses
e seus descendentes a deixarem Santos em um prazo de 24 horas.
1946
Decreto Lei nº 9.727, de 3 de setembro, assinado pelo presidente
Eurico Gaspar Dutra, dissolve as entidades que congregavam japoneses,
italianos e alemães (países que formavam o Eixo na guerra)
e proíbe suas atividades; os bens são incorporados ao Patrimônio
da União.
1947
Decreto nº 23.086, de 11 de março, determina que os
imóveis incorporados ao Patrimônio, especificamente aqueles
nas cidades de Santos e São Vicente, sejam destinados ao Exército.
1952
Japoneses e seus descendentes voltam às atividades, ocasião
em que a Sociedade Japonesa ganha a denominação Associação
Japonesa de Santos. Nos anos 50, começam a surgir novos clubes
e entidades, como o Atlanta (1949), o Estrela de Ouro (1952) e o Grêmio
Recreativo Nissei Vicentino (1956).
1990
Prefeita de Santos, Telma de Souza, tenta permutar uma área
da municipalidade com o Exército, para que este devolvesse o imóvel
da Associação Japonesa, então presidida por Arata
Kami. A Comissão Casa de Cultura Japonesa, como ficou conhecida,
não obteve sucesso. Participou ativamente do processo o vereador
Adelino Rodrigues.
1994
Deputado federal Koyu Iha apresenta Projeto de Lei nº 4476
na Câmara, em Brasília, pelo qual solicita a devolução
do imóvel. O pedido foi para o Senado e voltou para a Câmara,
onde foi arquivado e reaberto, colocado em votação, mas
sem aprovação.
2005
No princípio do ano, uma Comissão de Retomada é
criada por lideranças da Associação Japonesa de Santos,
Associação Nipo-Brasileira de São Vicente, Estrela
de Ouro Futebol Clube, Associação Okinawa de Santos, Associação
Okinawa de Praia Grande e Associação Atlética Atlanta.
Vereador Adelino Rodrigues manifesta, em fevereiro, interesse em ingressar
no Ministério Público para impetrar uma ação
de devolução do imóvel. Telma de Souza, já
na condição de deputada federal, promete agilizar o processo
em Brasília.
2006
Em 22 de agosto, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, assina
o decreto que prevê a cessão, por tempo indeterminado, do
imóvel da Rua Paraná à Associação Japonesa.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa da solenidade.
Em 9 de dezembro, o contrato de cessão é assinado entre
Alexandra Restche, secretária da SPU, Luiz Inácio Lucena
Adams, promotor da Procuradoria Nacional da Fazenda, e Hiroshi Endo, presidente
da entidade.
|