
PASSADO -
Ministro Bernardo, observado por Sadao Nakai, assina portaria que
permitirá a cessão do imóvel à Associação
Japonesa de Santos
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(Texto e Fotos:
Helder Horikawa/NB)
Associação
Japonesa de Santos finalmente tem a sua sede, na Rua Paraná, 129,
na Vila Mathias, devolvida pelo governo brasileiro. O imóvel havia
sido confiscado e incorporado ao Patrimônio da União por
meio do decreto presidencial nº 9.727, assinado por Eurico Gaspar
Dutra, em 3 de setembro de 1946. A decisão, na época, previa
a expropriação de bens das comunidades japonesa, alemã
e italiana, cujos países formavam o Eixo na Segunda Guerra.
Devolução,
na verdade, é força de expressão. Na prática,
o que o governo fez é a cessão do imóvel, do terreno
de 2,5 mil metros quadrados da Vila Mathias, por tempo indeterminado.
A portaria que prevê, agora, a conclusão do contrato, foi
assinada no dia 22 de agosto, pelo ministro do Planejamento, Paulo Bernardo,
em audiência no Palácio do Planalto, em Brasília,
que teve como anfitrião o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva.
Para o presidente,
a cessão do imóvel foi o pontapé inicial, por parte
do governo brasileiro, nas comemorações do centenário
da imigração japonesa no Brasil, que ocorrem em junho de
2008. Esse gesto já é o começo da festa. Agora,
precisamos envolver nela, além do governo, a sociedade civil organizada,
empresários e quem tiver interesse, disse.
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Luiz
Inácio Lula da Silva*
Meus
amigos, minhas amigas, ministros e representantes do povo de Santos, deputados.
Dentro de dois anos, vamos comemorar um século do desembarque,
em Santos, das 781 pessoas, de 151 famílias que formaram o embrião
daquela que é hoje a maior comunidade japonesa fora do Japão.
Estou falando dos mais de 1,5 milhão de brasileiros de origem nipônica
que hoje vivem em nosso País, enriquecem a nossa cultura e a nossa
vida nacional.
Tenho certeza
de que, por seu significado para o Brasil e o Japão, as comemorações
do centenário serão muitas nos dois países. Por isso,
ouso dizer que elas se iniciam, simbolicamente, com este evento que tenho
a honra de presidir.
Esta solenidade
tem o sentido da reparação histórica e da afirmação
da paz e da cooperação entre os povos. Há mais de
60 anos, durante e depois da Segunda Guerra Mundial, o governo brasileiro
confiscou bens e propriedades japonesas e também alemãs
e italianas. Foi o caso, lamentavelmente, da Escola Japonesa de Santos.
Ela entra para o rol de episódios de intolerância, discriminação
e injustiça que não fazem parte da índole brasileira
mas que, infelizmente, se materializaram em tempos de guerra, quando o
horror brota da ignorância irresponsável e faz dos inocentes
as vítimas eleitas.
A cessão
do uso do histórico casarão da Rua Paraná, na Vila
Matias, para a Associação da Comunidade Japonesa de Santos
busca reparar aqueles antigos acontecimentos. A Portaria que o ministro
Paulo Bernardo assinou hoje representa o reconhecimento do direito desta
comunidade sobre a preservação da sua história e
sua cultura e, sobretudo, a nossa gratidão com os emigrantes que
cruzaram o mundo para ajudar a construir o Brasil.
Além
disso, e não por coincidência, formalizamos este ato em agosto.
Nos dias 6 e 9 deste mês, no ano de 1945, as tragédias de
Hiroshima e Nagasaki escreveram uma página de terror na história
da humanidade.
Por todas essas
razões e sobram razões, podem acreditar sinto-me
honrado e feliz em ser o presidente da República que assina este
ato de reparação que coloca as coisas nos seus devidos lugares.
Tenha a certeza de que a comunidade japonesa de Santos, estimulada por
seus irmãos espalhados por nosso Brasil e pelos brasileiros que
lhes estenderam as mãos, saberão dar o melhor destino possível
à Escola Japonesa de Santos.
A escola que
funcionava no velho casarão de Santos era japonesa no nome, mas
tinha muito do Brasil em seu coração, pois ela era aberta
também para os brasileiros, e as crianças japonesas que
lá estudavam formaram a primeira geração de nascidos
no Brasil. Essa convivência era a prova da importância que
a comunidade japonesa dava à integração com o povo
do país que havia adotado como pátria.
Se nossos povos
se integraram de forma tão fantástica, os nossos governos
e empresários também podem seguir esse caminho. E é
isso que nós estamos fazendo, de forma vigorosa, nos últimos
três anos e meio. A minha viagem ao Japão, no ano passado,
retribuindo a visita que o primeiro-ministro Koizumi fez ao Brasil, fortaleceu
a relação política, comercial e cultural entre as
duas nações e resultou na criação do Conselho
Brasil-Japão para o Século XXI, cujos membros tenho a honra
de receber hoje. Desde então, pudemos realizar outras importantes
parcerias econômicas e tecnológicas, como a que resultou
na criação de um inovador modelo nipo-brasileiro de TV digital.
Neste dia,
com a presença, entre nós, da senadora Chikage Oogi, presidente
da Câmara dos Conselheiros do Parlamento japonês, voltamos
a fortalecer os laços entre nossos países. Estou falando
de um Japão que renasceu das cinzas daquela que foi a mãe
de todas as guerras, e de um Brasil que não quer mais perder oportunidades
porque vai aproveitá-las todas, que não quer desperdiçar
mais um século porque investe seu conhecimento, suas riquezas e
seu capital humano na construção de uma sociedade cada vez
mais justa.
Como se vê,
a semente de integração que aqueles primeiros imigrantes
plantaram espalhou-se por todo o Brasil e pelo mundo e vem dando frutos
da melhor qualidade ao longo dos anos. Nossa tarefa é fazer esses
frutos se multiplicarem e isso se dará com o aprofundamento de
nossas relações comerciais, culturais e diplomáticas,
com cooperação, respeito e paz. Devemos continuar trilhando
sempre esse caminho para termos a certeza de que este século que
todos estamos construindo não repetirá as injustiças
dos tempos que, felizmente, já passaram.
Eu penso que,
depois da vinda do primeiro-ministro Koizumi aqui, no final de 2004, e
da nossa viagem ao Japão, no ano passado, nós estamos recuperando
um patamar de relações que o Brasil já tinha tido
com o Japão e, nos últimos anos, houve um certo distanciamento,
um certo afastamento. Primeiro, a parceria política que estamos
construindo, quando Japão e Brasil trabalham juntos para que a
gente tenha renovação, democratização e ampliação
no Conselho de Segurança da ONU. Segundo, o projeto de TV digital.
Todos vocês sabem que nós tivemos, aqui no Brasil, pressões
e mais pressões, disputas e mais disputas, ora um modelo americano,
ora um modelo europeu, e nós entendemos que o modelo de TV digital
japonesa se enquadrava melhor no modelo nipo-brasileiro.
Firmamos um acordo na perspectiva de trazer para o Brasil a produção
de semicondutores e fazer com que o Brasil entre definitivamente na era
da microeletrônica, já que, na década de 90, nós
perdemos algumas oportunidades. E a terceira, do ponto de vista da relação
entre o povo japonês e o povo brasileiro.
Não
é à toa que um milhão e meio de japoneses ou descendentes
até a quinta geração moram no Brasil; não
é à toa que nós temos verdadeiras cidades japonesas
dentro das cidades brasileiras e não é à toa também
que no Japão já há 300 mil brasileiros vivendo, possivelmente
com menos sacrifício dos que os japoneses que vieram para cá
em 1908, porque os avanços tecnológicos da informática
não permitem que haja isolamento, como houve em 1908.
Se os dois
povos através das suas pessoas mais humildes, através
de famílias que saíram pelo mundo na tentativa de procurar
uma melhor sorte de ganhar o pão de cada dia se, através
desses dois povos, nós estamos dando uma demonstração
de que a distância não pode ser nenhum obstáculo para
a relação JapãoBrasil e BrasilJapão;
se os povos estão provando que, apesar das diferenças que
temos, do ponto de vista cultural, aprendemos a nos respeitar e aprendemos
a nos gostar, a nossa decisão, enquanto governo, é aproveitar
este momento para estreitar cada vez mais a relação entre
JapãoBrasil e BrasilJapão. Estreitar a relação
política, estreitar a relação cultural, estreitar
a relação econômica e a relação comercial.
Por isso, foi muito exitosa a vinda do primeiro-ministro ao Brasil e a
nossa ida ao Japão, porque fizemos um sem-número de acordos
que possibilitaram a criação de grupos de trabalho para
resolver os vários problemas que tínhamos na nossa relação,
dentre os quais a Comissão Século XXI e o convite para que
a Família Imperial esteja no Brasil em junho de 2008 para comemorar
os cem anos. Aliás, a carta será assinada hoje para a Família
Imperial. Então, eu queria dizer a vocês que o gesto que
estamos fazendo hoje, aqui, na verdade, já é o começo
da festa. Já é o começo das comemorações
de cem anos da família japonesa no Brasil, do povo japonês
no Brasil.
Certamente,
nós vamos ter muito trabalho. A comissão tem que levar em
conta que nós precisamos envolver, além do governo, a sociedade
civil organizada, empresários, ONGs e quem mais queira participar,
mas uma coisa vocês, representantes da comunidade japonesa no Brasil,
tenham a certeza: se depender do governo brasileiro, vamos sensibilizar
o coração do nosso ministro do Planejamento, para que, no
Orçamento de 2007/2008, sobretudo o de 2008, o governo brasileiro
assuma para si a responsabilidade de fazer uma grande festa, porque nós
temos consciência e sabemos quanto o povo japonês ajudou o
Brasil a ser o que é.
Portanto, é
o reconhecimento de uma parceria histórica, que já vai para
mais de um século, e uma parceria em que os dois povos, gente humilde
que transita do Japão para o Brasil e do Brasil para o Japão,
estão dizendo às autoridades japonesas e às autoridades
brasileiras: não olhem a distância, olhem a nossa compreensão,
olhem a nossa proximidade, porque não é pelo cabelo, não
é pelos olhos que vão nos diferenciar. Nós temos
muito em comum. Somos dois povos empreendedores, dois povos que gostam
de vencer, dois povos que não desistem nunca. E eu espero que,
depois do dia 18 de junho de 2008, a relação BrasilJapão
seja infinitamente maior e melhor do que nós tivemos até
hoje. Meus
parabéns a todos vocês e muito obrigado.
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