
Parte da casa
montada no Museu Histórico da Imigração Japonesa
em São Paulo, identificando a moradia dos imigrantes
|
Verdureiros,
plantação de repolho e de tomate (à dir.):
trabalho e consumo
|
(Texto: Juliana
Tieko Octavini/NB | Fotos: Acervo Museu Histórico da Imigração
Japonesa e Fernando Takahashi/NB)
Sushi, sukiyaki,
missô, ozooni, sashimi, tofu. É difícil imaginar a
vida dos nikkeis sem estes alimentos. Mas, em 1908, quando os primeiros
imigrantes desembarcaram no porto de Santos, não existia a variedade
de alimentos japoneses que se tem hoje em dia, muito menos era possível
encontrá-los em qualquer supermercado ou mercearia especializada.
Assim, logo
que chegaram ao Brasil, eles tiveram, entre outras coisas, que aprender
a cozinhar e a saborear a comida brasileira. Mas, ao contrário
do que se pensa, eles não se esforçavam muito para assimilar
os hábitos alimentares daqui e só escolhiam alimentos que
atendessem ao seu paladar.
Quase tudo
o que comiam provinha do armazém da própria fazenda, mas
os produtos eram muito caros em relação ao que ganhavam.
Por isso, chegavam a passar fome e eram obrigados a comer somente o necessário,
uma vez que também não havia comida suficiente para toda
a família. Como conseqüência da má alimentação,
muitos japoneses ficaram subnutridos e doentes e diversas crianças
morreram.
Mesmo diante
das dificuldades, usavam vários artifícios culinários
a fim de se alimentar. (...) Em geral a mesa dos imigrantes japoneses
nas fazendas era servida com pratos à moda japonesa, feitos com
ingredientes brasileiros, o que não se alterou até hoje.
(...), conta o livro O Imigrante Japonês Histórias
de sua vida no Brasil, escrito por Tomoo Handa. (...) Para o japonês,
acostumado a dar gosto à comida com o shoyu, aquela era uma cozinha
que não o satisfazia. (...), relata a obra.
Na merenda
matinal, não havia pães, frutas e leite à mesa. Faziam
bolinhos com a mistura de pó de café, farinha de trigo e
fubá e engoliam com um pouco de café, bebida que os japoneses
levaram meses para apreciar o gosto e cujos grãos eram dados pelas
fazendas.
E, por falar
em bebidas, quando não tomavam água, faziam chás
com plantas encontradas nas próprias fazendas e, ora ou outra,
experimentavam um pouco de vinho, que era dado de presente pelos italianos
como uma forma de retribuir a ajuda japonesa.
A
base da alimentação japonesa
O único
consolo foi encontrar por aqui o arroz. Mas este era consumido aos poucos,
como uma forma de economizar, já que se tratava de um produto caro.
Fumie Nemoto,
82, lembra bem desse período em que a comida era excassa. Vinda
da província de Ibaraki, no Japão, ela chegou ao Brasil
em 1932, aos 9 anos, junto dos pais e de mais cinco irmãos, e foi
viver na região mogiana, numa fazenda de cana-de-açúcar.
Como os pais
saíam cedo para trabalhar, Fumie era quem ficava cuidando dos irmãos.
Antes de sair de casa, a mãe deixava preparado alguns oniguiris
para as crianças comerem no almoço e, com o caldinho do
arroz (omoiyu), a garotinha fazia a mamadeira para o irmão mais
novo, de apenas 3 meses, uma vez que o leite também era um produto
muito caro para o padrão de vida dos imigrantes. Doce, nem
pensar. Não existia. Tínhamos que comer somente aquilo que
tinha, mesmo que desse fome, lembra.
Assim como
a família de Fumie, os outros imigrantes bem que tentaram preparar
o arroz à brasileira, temperado e cozido com óleo. Mas,
além de não saberem cozinhá-lo corretamente, acharam-no
gorduroso e empapado demais e passaram a fazê-lo como no Japão,
sem tempero algum.
Aliás,
todos os pratos que faziam eram sempre temperados após o preparo,
ao contrário dos brasileiros, e, na maioria das vezes, apenas com
um pouco de sal ou açúcar.
Inventando
okazu
Na época,
não existiam muitas misturas (okazu). Era necessário optar
apenas por uma que, quase sempre, era mandioca, batata-doce, quiabo ou
berinjela. Mas aprenderam a preparar canjica, que também era consumida
com o arroz. E até frutas como banana e manga eram saboreadas com
o gohan.
Estavam sempre criando um tsukemono diferente. Mas o mais comum entre
os primeiros imigrantes era o de mamão.
Graças a outros imigrantes japoneses, que trouxeram na bagagem
algumas sementes de soja, era possível fazer um missô caseiro.
Porém, quando não havia missô já que
não era possível comprá-lo nos armazéns da
época , os japoneses improvisavam sopas com ingredientes
encontrados no mato como picão, caruru e maxixe ,
ou faziam bolinhas de farinha de trigo temperadas com sal, parecidas com
aquelas que comiam no café-da-manhã. Com a farinha, ainda
faziam o lamen e o udon, pratos que os japoneses também não
dispensavam.
Diversificando

Os
imigrantes descobriram que podiam derreter a banha de porco e transformá-la
em óleo, que era utilizado como tempero de muitos alimentos |
E foi com a
ajuda de imigrantes de outras nacionalidades que os japoneses puderam
aprender a preparar outros tipos de alimentos. Dos italianos, conheceram
os pães, que eram feitos somente nas tardes de sábado. Dos
negros, aprenderam a comer a carne de porco e, com muito esforço,
a matar esse animal. Porém, não acostumados, os japoneses
ficavam enjoados com a lembrança das cenas da matança do
porco e de sua limpeza, não conseguindo, muitas vezes, comer a
carne.
Ficavam surpreendidos com a quantidade de gordura encontrada nas banhas
dos porcos, mas aprenderam que podiam derretê-la e transformá-la
em óleo, que era utilizado como tempero de muitos alimentos. Como
não existia geladeira, conservavam a carne com missô caseiro.
Também comiam carne-seca e bacalhau, mas achavam estes alimentos
muito salgados e enjoativos.
Apenas o feijão foi assimilado pelos japoneses, embora muitos o
cozinhassem com açúcar e misturassem a ele no cozimento
alguns legumes encontrados nos matagais.
Chegada
dos produtos japoneses
Depois da
Segunda Guerra Mundial, muitos produtos japoneses já podiam ser
encontrados no Brasil, mas eram caros. Assim, eles continuavam inventando
pratos diferentes para economizar.
Descascavam, por exemplo, a melancia e cozinhavam a parte mais verde com
shoyu ou missô e a comiam com arroz.
O arroz, aliás, passou a ser um alimento bastante popular, não
só para os brasileiros mas aos outros imigrantes. Assim, podiam
comê-lo com mais freqüência e até criar outros
pratos, como o ochazuke (arroz regado com chá verde).
A família de Hisae Sagara, 76, por exemplo, chegou ao Brasil há
49 anos e criou um prato à base de missô que era servido
para comer junto do arroz como uma mistura (confira a receita abaixo).
Mesmo 47 anos após o preparo dessa mistura, Hisae conserva até
hoje esse alimento e o usa para passar na torrada ou para temperar comidas.
Ela conta que foi uma época muito difícil para se adaptar
à comida brasileira. Comíamos, por exemplo, o butagussa,
grama com a qual os porcos se alimentavam e que soltava muito o intestino,
lembra. Além disso, trouxemos do Japão um pote de
umeboshi e glutamato monossódico, mas só durou seis meses,
porque era comum naquela época emprestar comida para outros imigrantes.
As lembranças dos tempos difíceis nas fazendas continuam
na memória de todos os imigrantes. Mas os tempos mudaram e, agora,
são os brasileiros que aprendem a preparar alimentos da culinária
japonesa, graças à ascensão da gastronomia desse
povo que conquistou o paladar de todo o País a partir da década
de 80.
|