Nippo-Brasil
- Como é dirigir o Museu da Imigração Japonesa?
Célia Oi - Dirigir um Museu da Imigração Japonesa
é uma coisa um pouco complicada. Complicada porque você tem
um público específico. Eu acho que como descendente de japonês,
você começa a lidar com aquele japonês do Japão,
issei, não só aquele que vem do Japão, mas aquele que
é a primeira geração de imigrantes. É muito
complicado essa convivência. Não é que é complicado,
a gente que nasceu aqui no Brasil não sabe muito bem. Acha que está
acertando e no fim está errando tudo. Até eu me acostumar
a ter uma convivência mais pacífica com esses senhores foi
complicado. Eu acho que também tem o fato, é óbvio,
de ser mulher. Ao mesmo tempo, eu sinto que é uma atividade muito
interessante. Então, é uma coisa que te exige persistência,
paciência. Tem a história de buscar os dados e encontrar. De
você ter que necessariamente ler, aprender, buscar, pesquisar. É
uma vida que a cada dia você vai acresentando e você vai encontrando
compensações.

NB- Quais
foram as suas principais conquistas enquanto diretora do Museu?
Célia - O primeiro grande desafio foi montar a exposição
do nono andar. Montamos um projeto grande e conseguimos viabilizar 60%
desse projeto. Na realidade, queria montar esse andar, mas também
reformar o sétimo e o oitavo andar, mas por falta de recursos fizemos
apenas umas reformas estruturais e uma das mais importantes foi a substituição
de toda a instalação elétrica desses dois andares.
A exposição continuou como tal, parecida, não mudamos
muito. Substituímos algumas pinturas, mas você não
percebe muito que houve uma mudança.
Em termos de
organização do acervo, a grande conquista foi ter conseguido
algum recurso do fundo nacional de cultura, organizando um pouco a biblioteca
e também iniciar um banco de dados.
Eu também
posso juntar a essa pergunta, uma maior frustração, porque
acho que elas pesam muito. Uma das grandes realizações foi
montar uma estrutura de banco de dados. Hoje, temos servidor, computador,
intranet, só que caminhamos muito pouco nesse banco de dados pela
falta de mão-de-obra para tocar esse trabalho. É uma grande
frustração. Sentimos muito principalmente quando recebemos
grupos de pesquisadores. Em 10 anos de museu, como diretora, você
tem realizações, mas também tem grandes frustrações.
NB - O que
o Museu representa para a senhora?
Célia - Representa uma parte muito importante da minha vida.
Eu acho que não só pessoalmente, enquanto uma realização
pessoal, mas também pela possibilidade de estar garantindo a existência
de um local que possa guardar, ou que tenha guardado muitas informações
sobre a memóriae a presença dos imigrantes japoneses. Consideramos
determinados detalhes, ou um monte de detalhes importantes, para ser deixado,
guardado, preservado, para uma quinta, sexta geração, ou
para pessoas que não tem nada ver com a imigração
japonesa, vir aqui até o museu e conseguir ter acesso e estudar
esse material. Trabalhamos um pouco com essa expectativa de estar garantindo
a preservação desses objetos. Portanto, acho que não
só pelo fato de você pessoalmente estar lutando pra isso,
mas eu acho que pela possibilidade da comunidade guardar sua história
em termo de Brasil, em termo de mundo.
NB - O que
os visitantes mais gostam de observar no Museu e o que não devem
deixar de observar?
Célia - Depende muito do visitante. Por exemplo, se você
tem uma família de imigrantes ou de velhos imigrantes que vem com
os netos, então é uma satisfação deles mostrar
o navio que a família chegou. A cabana no sétimo andar fala
desse momento que os imigrantes foram para frente de expansão e
passaram a morar no meio das matas. É um momento em que as famílias
gostam de falar dos antigos, sobre o sofrimento, sobre a dificuldade que
foi aquilo. Agora, sem dúvida, uma grande atração
do Museu é essa cabana. É um objeto, um marco que fala sobre
a dificuldade deles.
NB - O Museu
prepara alguma surpresa para o centenário?
Célia - Não, o Museu nunca prepara surpresa. Ele tinha
vários projetos, várias expectativas. Trabalhamos há
5 anos com uma série de projetos. Esses projetos em algum momento
acabaram desandando. Sabemos que é uma questão de recursos
financeiro e também por uma questão de uma liderança
de alguém com pulso firme pra liderar os grandes pojetos que o
Museu imaginou para o centenário. Eu tenho que admitir como diretora
que isso será uma grande frustração para o Museu.
Pensamos para
o centenário, por exemplo, uma expedição pelo Brasil,
coletando não só depoimentos, como também objetos,
documentos. Achamos que o Museu poderia organizar uma grande expedição,
como foi feito em 1978. Eu acho que vai ser meio difícil concretizarmos
esse projeto. Sinceramente, eu confesso que é uma incapacidade
minha de ter encontrado fontes financiadoras que pudessem garantir esse
recurso, porque é um projeto caro. Na época, cotamos algo
em torno de R$ 2 milhões, sem gastar nada. E também alguém
que fosse líder suficiente pra colocar na cabeça das pessoas
da comunidade que isso é um projeto importante.
Hoje, em termos
de centenário, o Museu está participando da elaboração
da digitalização da lista de imigrantes japoneses. Temos
a lista quase completa de todos os imigrantes que entraram no Brasil de
1908 até 1958. Listas nessa parte anterior à guerra. São
listas de passageiros nos navios com dados sobre a constituição
da família, a idade, para onde foram. As pessoas sempre quiseram
saber da onde a família veio. Nesse momento queremos criar algumas
referências para os descendentes japoneses em relação
a origem deles enquanto imigrantes. Felizmente, o centenário está
nos proporcionando a oportunidade de criar esse banco de dados com os
nomes dos imigrantes.
NB - A
senhora faz parte da comissão do centenário? Como estão
sendo os preparativos?
Célia
-
Da mesma forma que tivemos as comemorações de 50, 60, 70,
80 anos, agora com o centenário existe uma expectativa maior, uma
preocupação maior. Todo mundo quer participar, todo mundo
quer fazer parte desse centenário. A Sociedade Brasileira de Cultura
Japonesa já prevendo essa grande festa, essa grande comemoração,
montou uma comissão específica. O Museu mandou seus projetos
e devido a própria incapacidade da instituição de
conseguir recursos para vibializar esses projetos, hoje ele participa
como um dos realizadores desse banco de dados dos imigrantes japoneses.
Eu acho que
como toda grande festa, com grande participação das pessoas,
existem muitos desencontros. Acho que alguns desses desencontros têm
sido complicadores para o perfeito andamento das organizações
desse evento. Eu diria que as pessoas integrantes da associação
do centenário estão se esforçando para fazer a maior
festa, mas eu diria que eles estão enfrentando uma série
de dificuldades.
NB - O que
o centenário representa para a senhora?
Célia
- A
imigração japonesa que começa para o Brasil em 1908
e teve um momento de grande intensificação nos meados da
década de 20 até a década de 30 se dá em um
momento de grande dificuldade do povo japonês. Temos os nossos antepassados,
bisavós, avós e até pais que vieram para o Brasil
sonhando com uma vida melhor. Eles queriam eles próprios ter conforto,
conquistar alguma coisa. Vieram aqui, trabalharam intensamente em busca
desse sonho. Então, acho que nós da segunda, terceira e
quarta geração não podemos perder essa referência.
A referência desse sonho dos nossos paisé muito importante
para criarmos nossos sonhos e partir para a concretização.
Acho que isso é muito importante, não só hoje para
nós como brasileiros, mas também como filho de imigrantes
japoneses. Às vezes perdemos um pouco essa referência. Agora
às vezes também é um peso, uma certa obrigatoriedade
de estar assumindo um pouco o sonho dos pais da gente. Mas eu acho que
podemos construir nossos sonhos a partir disso daí. Enquanto descendente
de japoneses, temos dois aspectos. Uma de descendente e outra de brasileiro.
Então, precisamos trabalhar esses dois aspectos. Isso na época
do centenário fica mais pesado. As pessoas começam a cobrar
mais da gente e a gente também começa a se cobrar mais.
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